" /> Natura Musical: na rua, de graça. Mas com ingresso e hora certa para entrar | Festivalando

Natura Musical: na rua, de graça. Mas com ingresso e hora certa para entrar

O que a gente faz quando não está viajando para ir a festivais? A gente festivala em casa, uai. Foi isso que eu e a Paula fizemos no último domingo (14). De volta a BH, fomos ao Natura Musical, festival criado há nove anos, e que há quatro acontece exclusivamente aqui na terra do pão de queijo. A proposta do festival é levar artistas da nova e tradicional música brasileira para shows gratuitos em praças da cidade mediante a troca de ingressos para controle de acesso do público (mais detalhes sobre isso adiante).

Assim fomos nós para a Praça JK, onde vimos o show da Nação Zumbi, uma espécie de prática religiosa que realizamos já há alguns anos – sempre que eles vêm aqui, lá estamos nós.

Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem – apesar das catracas e grades que cercam a praça (mais adiante também). Até que eu saio de lá em direção à Praça da Estação, onde estava montado um outro palco. Fui com a intenção de pegar o último show, Arnaldo Antunes com participação de Marisa Monte. Cheguei às 22h15 e me direcionei a um dos funcionários posicionados nas grades que cercavam a rua para saber onde exatamente onde era a entrada. A moça com colete laranja me indicou o caminho, mas já adiantou: “Não se está entrando mais”. “Mas por quê?”, eu quis saber. “Porque faltam 15 minutos para o show acabar”. Oi?

Achei tão sem sentido a informação que simplesmente ignorei e me dirigi à entrada, como ela havia me indicado, com o ingresso em mãos. Chegando lá, o rapaz de terno que estava à frente de uma das grades me negou a entrada. E deu a mesma justificativa. Apesar de o show, gratuito, estar acontecendo em um espaço público e eu ter direito ao acesso porque paguei R$ 5 para um evento, repito, gratuito, em um espaço público, eu não podia entrar porque o show estava acabando. E daí? E se eu quisesse ver só o final, que foi o momento em que Marisa Monte subiu ao palco. E seu eu tivesse tido todos os problemas para chegar ao local? Onde estava escrito no ingresso, no site, na Fan Page ou escambau que havia hora limite para entrar?

Um parêntese: cheguei as 22h15, o pessoal da entrada disse que o show terminaria em 15 minutos, mas fiquei ouvindo tudo de longe até o fim para presenciar o fim do show 40 minutos depois, às 22h55. Nesse intervalo, vi a entrada ser negada a uma moça também.

Não sei de quem partiu a decisão – me deram a velha e vaga justificativa de “ordens superiores”. Pode ter sido da organização do Natura Musical, da prefeitura, da coordenação da equipe de segurança ou da própria cabeça de quem estava controlando a entrada. Mas isso não importa diante do fato de que esse episódio é só um efeito colateral dos menos perversos frente à anomalia que eventos em espaços públicos aqui em BH estão assumindo há algum tempo.

Para quem não é da cidade: em 2009, o prefeito Marcio Lacerda (PSB) baixou decreto que proibia a realização de qualquer evento na Praça da Estação, um dos pontos mais antigos de BH. Pouco tempo depois, de maneira espontânea surgiu o movimento Praia da Estação. Em protesto contra a proibição, o movimento estimulou seguidamente a ocupação da praça pela população. Gradativamente, dezenas, centenas iam para a praça nos fins de semana pra tomar banho nas fontes da praça e pegar um bronze. O movimento ganhou força e visibilidade suficientes para fazer o prefeito voltar atrás. Mas só parcialmente, porque estamos tratando de um administrador público que não entende o que é administrar para o público (após mortes e desastres provocados por uma enchente em 2012, Lamerda, como é carinhosamente chamado por aqui, chegou a dizer em tom de ironia que deveria ter sido “mais babá” da população para evitar as situações de risco).

Com a mudança no decreto, os eventos na Praça da Estação voltaram a ser permitidos, mas mediante pagamento de taxa que varia de R$ 9.600 (eventos de um a dois dias) a R$ 19.200 (eventos de cinco a seis dias). Além disso, as regras para a realização de eventos lá, e eventualmente em outros locais públicos da cidade, são determinadas pela prefeitura em parceria com a Comissão de Monitoramento da Violência em Eventos Esportivos e Culturais (Comoveec), órgão subordinado à Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds). Porque, veja só você, povo na rua é assunto de segurança pública.

O resultado, em muitos casos, como ocorreu com o Natura Musical, é a exigência, por parte do poder público, da colocação de catracas, além de grades e tapumes, no entorno da praça e a distribuição de ingressos como medida de controle de acesso do público. Catracas, grades, tapumes. Praça pública. Ingressos. Evento gratuito. Tudo junto e misturado. Você não entendeu errado. E no meu caso e no da moça que chegou depois de mim (e talvez de mais alguém que eu não tenha visto), a exigência de se chegar bem antes do show acabar, porque quem chega atrasado não pode entrar, mesmo com ingresso em mãos.

Do outro lado do tapume tem uma praça

Do outro lado do tapume tem uma praça

Mini “catracasso”
Nos 40 minutos que fiquei ouvindo Arnaldo cantar com Marisa, e também com B Negão, “do lado de fora” da praça (como uma praça pode ter lado de dentro e lado de fora?), vi uma moça e dois rapazes, em momentos distintos, tentarem pular a grande para entrar na praça. Foram todos repreendidos e impedidos pela segurança. Já no finalzinho, um grupo de umas cinco pessoas aproveitou o descuido de um segurança e conseguiu burlar a barreira. Saíram todos em disparada comemorando enquanto o segurança ficou parado olhando. Há quem enxergue nisso um belo ato de desobediência civil, mas vejo mais uma cena de melancolia gritante. Cidadãos tentando driblar uma equipe de segurança particular no intuito de entrar em um espaço público com limitações de acesso impostas pelo próprio poder público. Entendeu?

O Natura Musical tem uma proposta fantástica, de levar shows cujos ingressos seriam caríssimos para a maior parte da população para as praças. BH é privilegiada por ter sido escolhida pela marca há quatro anos para ser a sede exclusiva do festival. Mas teve a má sorte de chegar por aqui exatamente quando são criadas regras na cidade que arranham o que o festival traz de bom em sua essência: a espontaneidade e o acesso livre que um evento de rua carrega consigo.

Há quem diga que o projeto Viva, da Nivea, que também realiza shows gratuitos pelo Brasil, correu daqui de BH depois que enfrentou empecilhos para colocar Maria Rita cantando Elis Regina no Parque das Mangabeiras de graça. Que o Natura encontre soluções melhores e não tenha que correr daqui também. E que a gente também não tenha mais que correr – pra conseguir ingresso e pra chegar a tempo de entrar numa praça que deveria estar sempre aberta.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

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