Metalpunk Overkill: O encontro entre os invisíveis

A sessão [email protected] [email protected] está de volta e traz o texto da Patrícia Rodarte. Apesar de ser mestra em educação pela Universidade Estadual de Minas Gerais, ela não curte formalidades. Sempre abre um sorrisão e prefere ser chamada de Pati. Apaixonada pela experiência urbana, ela traz requintes antropológicos e etnográficos para nossa conversa de hoje e conta a fantástica experiência de estar na sexta edição do Metalpunk Overkill, festival underground de BH.

 

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METALPUNK OVERKILL: O ENCONTRO ENTRE OS INVISÍVEIS – por Patrícia Rodarte   

Mais do que um encontro de parte da cena underground de Belo Horizonte, a sexta edição do Metalpunk Overkill que aconteceu no Hotel Diamante, na Avenida Santos Dumont foi um encontro entre sujeitos e lugares subjulgados. Parece clichê falar assim de um festival cujos principais estilos são o heavy metal e o punk. Mas não é quando algo incomum acontece: esse grupo se depara com outra realidade de exclusão, outros sujeitos e espaços ignorados às vezes até por eles mesmos, no meio da mesma cidade.

Você já imaginou como pode ser um festival que acontece num bar de um hotel que é usado pelos profissionais do sexo, um prostíbulo na zona boêmia da capital mineira? Travestis, prostitutas, um em cada degrau da longa escada que nos leva até o bar do hotel Diamante. E era um diamante de alto quilate toda essa experiência que eu tinha diante dos meus olhos. Como mestre em educação, amante de antropologia cultural e pesquisadora etnográfica, o encontro proporcionado por essa edição do Metalpunk Overkill brilhava aos meus olhos como jóia rara.

Os travestis e prostitutas estavam ali a trabalho. Como o público do metal e punk é predominantemente masculino, é desnecessário dizer que não faltaram investidas desses profissionais em busca de potenciais clientes. Mas o que se torna muito necessário dizer é que o público reagiu com respeito. Não presenciei demonstrações de machismo ou preconceito. Muito pelo contrário, as pessoas estavam ali interessadas na música e, de alguma forma, depois acabaram acolhendo toda aquela novidade em forma de pessoas para dentro da festividade que marcava mais um encontro do underground.

Eu mesma fui interpelada por uma boa conversa com um travesti, que relatou para mim um pouco da sua vida, e das experiências marginais que o cercavam. Fiquei comovida com as narrações sobre o vício e a prisão que o mesmo trazia para a alma. Para mim, a noite foi mais do que especial. Conhecer essas pessoas e ainda escutar ótimas bandas e reencontrar amigos fez desse evento um acontecimento marcante e singular.

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Avenida Santos Dumont, centro de BH.

O coletivo que produz o Metalpunk Overkill é um grito, é algo para além de um ruído que irrompe em meio à cena cultural belorizontina, onde ainda sim é possível ver mais espaços para abrigar aquilo que chamamos de estilos musicais e culturas comerciais. No centro ou nas periferias, o coletivo trabalha com garra e vontade de seus organizadores e participantes, com intuito de manter acesa a chama deste universo tão diversificado do heavy metal e do punk. Como já dizia um dos autores franceses que muito admiro, Michel Maffesoli, esse grupo se liga por afetos. Mesmo que sejam indivíduos aparentemente distintos quanto aos estilos e subgêneros do heavy metal, assim como os punks de várias vertentes, essas pessoas são unidas por ideias e experiências comuns no espaço desse festival.

Há no coletivo Metalpunk Overkill, bem como nos eventos e grupos de pessoas que se agregam a cada edição do festival, uma luta pela manutenção de uma cena desvalorizada pela grande mídia, pela indústria cultural, mas que se torna honrada e estabelecida pelos grupos locais, que foge aos movimentos excludentes da globalização, que alimenta,perpetua e revela-se um movimento fiel, constante.

Os shows do Metalpunk Overvill são verdadeiros banquetes de diversidade. Ninguém lá dentro é cópia, ninguém é fantoche de ninguém. As experiências de personalização não estão apenas nas roupas, no jeito como cada um costura o seu patch no próprio colete. Cada músico, cada presente na plateia, cada pessoa traz uma bagagem diferente e torna cada encontro em uma nova edição do festival, um encontro único. As bandas sempre dos mais variados espaços. Seja da Finlândia, da Suécia, Espanha ou ali mesmo do baixo centro, a diversidade está pronta por si nas origens culturais de cada um.

Cada edição do MetalPunk Overkill é uma “experiência sensível” do que falei acima, apesar de que a presença em cada um destes não se traduz apenas nos sentidos, mas ao longo de tempos e espaços dos mais diversificados, desde o virtual, bem como de cada ambiente urbano por eles resgatados.

Aos organizadores Hector, Gabriel Herege,Hellnata e outros, muito força e honra para continuar o movimento.Agradecimentos pelas imagens cedidas.

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