Foto Andy Carrie/Fotos do post: Arquivo Pessoal

Viagem para festival e turismo musical: um papo com Gaía Passarelli

Gaía Passarelli, jornalista, começou escrevendo sobre música e hoje escreve sobre viagens. No meio do caminho, tinham os festivais de música. Eles misturaram as duas coisas na vida da moça – música e viagem, como a gente faz aqui no Festivalando. Sempre a trabalho, ela viajou para alguns dos principais festivais de música do mundo: Lollapalooza Chicago, Pitchfork, Coachella, Sónar, South by Southwest.

turismo musical gaia passarelli

Lá nos idos de 1997, ao lado de Gil Barbara e Camilo Rocha, Gaía fundou o rraurl.com, site pioneiríssimo na cobertura da cena eletrônica brasileira e na difusão de informações sobre a cena eletrônica mundial para o público brasileiro. Paralelamente, colaborou com publicações musicais como Bizz e Rolling Stone. De 2010 a 2013, Gaía foi VJ da MTV, onde apresentou o Goo (<3), Extrato e MTV1.

Mais ou menos desde 2012, Gaía migrou da música para a viagem e hoje é autora do blog How To Travel Light, integrante do projeto 3TravelBloggers, da Avianca, e também encabeça outros projetos ligados a viagens.

Em vários pontos desse intervalo de tempo, Gaía viajou para falar de música e é sobre essa fase de sua carreira que ela conversou com a gente aqui no Festivalando. Gaía compartilhou suas histórias e experiências nos maiores festivais de música do mundo, deu dicas para quem quer viajar para festival e forneceu insights interessantíssimos sobre turismo musical, para muito além dos festivais.

 

Como os festivais de música começaram a fazer parte de suas viagens?
Eu não tenho viajado mais para festivais de música porque uma hora cansa. Não sei se cansa pra todo mundo, mas eu cansei. Mas eles foram importantíssimos para o que eu estou fazendo hoje em dia que é escrever sobre viagens. Quando eu tinha o Rraurl (rraurl.com), antes da MTV, eu fui uma das primeiras pessoas a conseguir patrocínio pra cobrir festival. Eu fui pra Barcelona, Chicago e cobri festivais também em São Paulo. Pensando hoje em dia, até que foi super modesto, mas em 2007 era “UAU!”. Foi minha primeira experiência viajando para festival. Antes disso eu cobria muito festival no Brasil, desde o Free Jazz Festival, em 1997. Depois comecei a trabalhar na MTV e a primeira coisa que fiz com eles foi viajar para o South by Southwest, no Texas.

Foi super engraçado porque eles achavam que eu ia entrevistar os Strokes e só entrevistei artista indie, os mais indies. Mas mesmo assim deu certo. Depois continuei cobrindo festival aqui em São Paulo – Planeta Terra, Lollapalloza, o Eletronika em BH. Depois rolou de viajar pra Chicago pra cobrir mais festivais, mas a emissora já estava falindo e não dava pra investir muito nisso.

Mas quando eu comecei a viajar pra escrever sore música eu passei a prestar mais atenção na viagem e começou a me dar uma sensação de que eu queria viajar para ver os lugares e não para ver o festival. O que estou fazendo agora, que é escrever sobre viagem, é meio consequência disso.

Para quais festivais gringos você já foi?
Lollapalooza Chicago, Pitchfork, Coachella, Sónar, South by Southwest e o All Tomorrow’s Parties.

Algum desses festivais te marcou por uma experiencia especifica ou te impressionou mais?
O Coachella 2007 foi o primeiro festival na gringa que eu fui. Eu fui com o meu melhor amigo, o Jade (Gola), editor do Rraul na época. A gente acampou no festival – uma coisa que hoje eu não teria o menor pique de fazer, mas na época foi muito legal. A gente ficou super animado e super deslumbrado e voltou escrevendo ‘olha como os Estados Unidos são legais’, aquela coisa de primeira viagem. Pra mim foi o mais marcante.

O South by Southwest foi muito especial, mas por outra razão, porque foi o momento que caiu a ficha de como é difícil fazer televisão. Até então eu ia pro festival com uma câmera fotográfica básica, um bloquinho de notas e uma caneta, curtia o festival, tirava umas fotos e escrevia depois. Com televisão é outra história, tem que planejar tudo antecipadamente, você carrega equipamento pesado, tem que ter luz.

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Durante a viagem para o South by Southwest, Gaía tatuou os dedos

Você considera que existem diferenças entre os festivais brasileiros e estrangeiros?
O All Tomorrow’s Parties era muto diferente dos outros porque ele não tinha ações de patrocínio. Ele até credenciava os jornalistas, você tinha acesso aos artistas, mas todo mundo pagava ingresso, inclusive a imprensa. E chegando lá dá pra entender o porquê disso: não tem marca nenhuma, eles dependem totalmente da bilheteria e se não pagar ingresso o festival não acontece.

As pessoas reclamam muito que no Brasil os festivais têm muita marca, mas lá fora também tem, é a forma que eles encontram pra sobreviver. Coisas como congestionamentos pra chegar e sair lá fora também tem, acontece.

O que eles têm lá fora que eu acho que não tem tanto aqui é acesso maior a artistas que são quentes no momento, artistas que estão saindo em turnê naquele momento. Em raras ocasiões a gente pega isso acontecendo. Mas isso é uma questão geográfica.

Acho também que na gringa as ações de marca são um pouco mais espertas, mais bem sacadas, menos invasivas. Aqui é tudo muito no estilo logotipo gigante, espalhar hashtag nas redes sociais. Outra coisa é que festival na gringa não tem essa de pista VIP na frente do palco. É uma coisa brasileira, super horrorosa e não deviam fazer isso nunca mais.

Você tem uma história com a cena eletrônica, por conta do rraurl. Quais festivais de música eletrônica te proporcionaram uma boa experiência?
As edições do Skol Beats lá do começo foram muito especiais, muito especiais mesmo. Por mais que já tivesse acontecido o Free Jazz Festival antes, o Skol Beats era muito gigante, com cinco pistas, um monte de DJs internacionais que a gente queria ver. Foi um divisor de águas.

Teve o Nokia Trends, Moto Mix. Teve uma edição do Sónar em São Paulo em 2008 que foi legal também. Era uma outra proposta. Tinha balada à noite, tinha pista, mas montaram um espaço em São Paulo durante o dia no Instituto Tomie Ohtake com altas exposições de arte, vídeo, um monte de show e coisas super modernas acontecendo. E eu lembro da gente ficar impressionado. Na época parece que a marca patrocinadora não ficou feliz porque o nome Sónar apareceu mais que o nome da marca e eles não quiseram continuar o projeto, o que eu acho um puta absurdo, mas, enfim, não é o meu dinheiro, não sou eu quem decido.

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Gaía em Havana

No Goo você sempre colocava no ar bandas super alternativas, nada óbvias. Você é assim com festivais também, fica cavando aqueles menos badalados?
Na época do Goo a gente chegou a fazer uma lista de 12 festivais, um pra cada mês do ano, em vários lugares diferentes do mundo. Era meio que nosso mundo ideal. Se a gente conseguisse patrocínio, ia passar o ano fazendo isso. Mas esse tipo de projeto é difícil porque o custo é muito alto, principalmente se envolve TV porque tem que ir três ou quatro no mínimo. Acabou não indo pra frente.

Mas mesmo assim eu ficava super pesquisando sobre festivais, me cadastrava nos sites dos festivais, participava de fóruns para descobrir quais estavam acontecendo e sempre tive festivais que gostaria de ir não rolou. O All Tomorrow’s Parties, que era o festival da minha vida, eu consegui ir e queria ter voltado, mas não rolou. Queria ter ido no Moogfest, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Queria muito ter voltado pro Coachella, mas acho que não vou ter mais pique de fazer isso na vida. E queria muito ir no Glastonbury porque acho que é a experiência máxima de festival, é o mais antigo de todos, o maior, o mais foda.

Quais festivais no mundo você considera indispensáveis hoje para um amante de música?
Essa edição do Primavera Sound tá incrível o lineup, eu adoraria ir. O South by Southwest não é exatamente um festival de música, é um festival cultural com música, mas acho super interessante. Eu gostaria muito de ir a um festival que fosse uma experiência pelo local. Tem uns festivais na Islândia em que a locação é muito legal; tem o Fuji Rock, no Japão, que acontece no pé do monte Fuji; tem um festival que acontece na noite de ano em varias cidades da Austrália. E tem um festival brasileiro que eu nunca fui e ainda espero poder ir, que é o Universo Paralello.

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Em viagem a Joanesburgo

O nome do seu blog é How to travel light. Considerando que aqui no Festivalando a gente sempre dá dicas para as pessoas viajarem para festivais, que dicas você daria sobre ‘how to travel light’ para um festival na gringa?
A primeira vez que eu fui pra um festival na gringa eu levei uma mochila tão absurda, com protetor solar, fluido de lente de contato, wipes… Eu levei binóculo! (risos) Não usei nada daquilo, é óbvio. Hoje em dia, se for sair de casa pra um festival, como o Lolla aqui em São Paulo, vou com uma bolsinha pequena, celular velho – porque se perder tudo bem, documento e um pouco dinheiro. É isso. E esse lance do celular velho é verdade. Sei que é importante pra muita gente fazer fotos e vídeos bonitos e postar no Instagram, mas, cara, alguém vê realmente isso depois?

Pra quem está viajando pra festival e vai ficar numa situação mais desconfortável, o lance é se informar sobre as condições do festival. Vai estar chovendo, vai estar frio, o sol é muito forte? E pensar no que realmente precisa: colocar uma capinha de chuva e um casaquinho de nylon no fundo da mochila é sempre legal. Garrafinha de água não é todo festival que deixa entrar, mas levar sua própria garrafinha e encher nos bebedouros do festival é um toque bom porque economiza uma grana. É bom ter dinheiro trocado pra não ficar dependendo de cartão de débito, o sistema pode cair. Pra quem tem a pele muito clarinha, é excelente levar protetor solar. Canga é bom levar porque pode esticar no chão e sentar, pode usar como toalha se chover, pode enrolar e virar um xale; enfim, vira meio qualquer coisa. Tem que tentar levar os itens básicos, o mínimo possível.  

Você tem dicas de turismo musical? Locais que tenha visitado ou deseja ainda visitar e que estão ligados à música de alguma forma?
Uns anos atrás eu fui pra Nashville e fiquei super encantada em ver como a cidade tem uma tradição de música country que é um tipo de música que eu nem estou ligada, não faz parte das minhas referências, mas tudo na cidade é ligado à música de alguma forma. Londres é uma cidade absolutamente musical, sempre foi. É sempre muito legal, tem muita coisa acontecendo, muita loja de disco, muita gravadora, muita revista, muita energia rolando. São Paulo, no momento, é uma cidade incrível pra quem é brasileiro ou não é daqui. São Paulo é foda, tem muita coisa acontecendo.

E agora é muito mais fácil ficar sabendo quais os shows que estão acontecendo perto de um determinado festival. As bandas acabam tocando em shows menores, em outros lugares, então dá pra baixar aplicativo e se informar sobre isso. Quando eu cobri o Lolla Chicago em 2009 eu peguei um show do Phoenix num bar do lado do meu hotel. O Phoenix nem tinha explodido ainda e só fiquei sabendo disso porque tinha entrado num site local. A gente tem disponível hoje toda uma quantidade absurda de informação. Se ficar esperto e souber pesquisar acaba encontrando coisa muito legal pra fazer.

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Na Índia

Quais as melhores maneiras de se incluir música numa viagem?
Eu ouvi uma palestra do Vincent Moon – ele fez um monte de clipe de banda foda, tipo Foo Fighters, ele é muito ligado em música – e uma hora ele começou a viajar para registrar manifestações musicais de culturas específicas, tipo música cigana dos Bálcãs, música egípcia no Cairo. Música não precisa ser necessariamente a música moderna, pop rock indie de festival. Tem milhares de manifestações musicais rolando no mundo que são interessantíssimas.

Quando você vai googlar ‘festival de música’, acha festival de música sufi no Irã. Eu tenho ficado cada vez mais interessada nesse tipo de música, a música de uma região específica. Eu fui pro sul da Índia e pensei: como é a música tradicional daqui? E é a coisa mais linda, envolve dança, envolve roupa. Se ficar com o radar ligado pra essas outras manifestações, isso vai ser sempre uma forma interessante de colocar música na vida.

Se você está indo viajar por viajar, ou com os amigos, nada substitui montar um bom playlist e ir curtindo no caminho.

Gaía também indica: 10 festivais para dar a volta ao mundo

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora também coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Além de uma das mães do Festivalando, sou colaboradora da Mixmag e do Brasil Post e autora do Porque eu gosto de música. Também ajudei Paul McCartney a falar uai em pleno Mineirão.

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