Rock in Rio 1985, o primeiro de muitos!

Essa semana estamos bem saudosas aqui no Festivalando. Saudosas até do que não vivemos mas queríamos muito ter vivido. Justamente no ano em que nascemos, um dos maiores festivais de música do nosso país nascia. Tão lindo quanto a democracia e os sonhos dos jovens naquela época. Na segunda a gente trouxe o texto do Camilo Lucas. E hoje, a seção Leito@ Festivaleir@ traz o texto da Kennia Trevizani, umas das jovens que sonhou muito, achou que fosse impossível mas conseguiu se realizar! Ela conta toda a aventura que foi para conseguir o ingresso e a viagem, desde ir trabalhar numa locadora, a viagem num carro apertado e toda a emoção de estar dentro do festival. Vem ler pois está imperdível!

Rock in Rio 1985, o primeiro de muitos – por Kennia Trevizani.

Em 1985 ouvi um anúncio de um tal de Roberto Medina, publicitário do Rio de Janeiro que acreditou sozinho num projeto: o sonho de promover um evento de música com várias atrações,pra todos os gostos. Lembro até hoje todo o burburinho sobre o festival, que me deixou enlouquecida, pois era e sou fã de música, principalmente de rock e heavy metal. Na época, eu comprava tudo que tinha notícias do Rock in Rio, Jornal O Globo, revistas, tudo! Se o Roberto Medina sonhou, eu sonhei também! E se o sonho dele ia acontecer,porque o meu de ir nesse festival também não realizaria? Era isso o que me arrepiava! Toda vez eu pensava no festival e no quanto eu queria ir, eu chorava com aquela canção nas vinhetas das emissoras de televisão…chorava de vontade de ir…

Eu era menor de idade,sem trabalho,sem dinheiro, vivendo numa situação econômica muito complicada, aquela que todo brasileiro sabe muito bem como foi na década de 80. O que tinha de sobra era o desejo de viajar para o Rio e ver minhas bandas favoritas, na ocasião todas de Rock,em especial Iron Maiden, Def Leppard, Scorpions e AC/DC. Para mim os dias 11 e 19 seriam os mais importantes, pois eram todos cheios de bandas que eu amava.

Meu sonho parecia muito difícil de se realizar. Mas, as pessoas especiais aparecem na nossa vida, nos oferecem amizade e também muitas oportunidades. Meu grande amigo Paulo Afonso, que é meu amigo do peito até hoje, tornou meu sonho possível. Na época ele estava a montar uma videolocadora. Ele então teve a ideia de que eu trabalhasse com ele e, no retorno da viagem ele descontaria uma quantia a cada mês no meu ordenado. Iríamos eu ele e mais amigos. Tínhamos lugar para nos hospedar em Botafogo e tudo mais. Parecia que meu sonho já estava nas minhas mãos. Porém, quase senti-lo escapulir quando o assunto era pedir a permissão da minha mãe. Ela não queria deixar em hipótese alguma. Eu até entendia – separada, cuidando sozinha de três filhas, não tinha condição de bancar a minha viagem e teria que confiar uma de suas filhas a esse amigo e, ficaríamos hospedados na casa da tia desse amigo, a qual ela sequer conhecia. Mas, depois de eu insistir muito, quase todos os dias falando na orelha da minha mãe, depois de muitas trouxas de roupa lavadas e casa arrumada, eu venci!

Seria a aventura mais épica da minha vida. Certamente foi um episódio marcante! Conhecer o Rio, a praia e ir ao maior evento de rock do mundo – já se falava assim do evento desde aquela época! Eu continuava a pesquisar todos os passos do Medina. A contratação das bandas, o encontro hilário que ele teve com os integrantes do Iron Maiden, enfim. Eu sonhava acordada e estava tudo certo para a partida rumo à cidade maravilhosa. Iríamos em 4 pessoas, todas num Corcel antigo. A viagem foi super maneira. Chegamos na hora do almoço e meu amigo queria que comêssemos no Copacabana Palace! Eu fiquei tremendo de medo! Estava com estômago ruim, bem enjoada por conta da longa viagem e tinha medo de chegando lá dar de cara com algum dos meus ídolos e acabar vomitando sobre eles! Preferi parar e olhar o mar, sentir a brisa no meu rosto – era a primeira vez que eu via o mar, inclusive.

Não fomos em todos os dias do festival, apensar de o meu amigo ter comprado o bloquinho completo, dos dias 11 ao 20. Fomos apenas nos dias do metal. Na época, era mais em conta você comprar todos os dias do que comprar apenas 1 ou 2 separadamente. Depois de termos nos acomodado, dormimos e chegava o grande dia, o dia de ver a minha banda favorita, o Iron Maiden! Eu ficava arrepiada com a possibilidade de escutar todas aquelas músicas ao vivo. Entrei na tão falada Cidade do Rock. Mal conseguia acreditar. Entramos lá dentro sem nada… minha pulseirinha estilosa do metal foi confiscada. Não era permitido entrar nem com máquina fotográfica. E olha que nem tinha todas as tecnologias que temos hoje. Mas enfim, entrei feliz demais, mesmo sem pulseirinha. Entrei e não parava de pensar que ali estávamos nós e os palcos, nós e nossos ídolos!! Adentrei o gramado e só pedia que os que estavam à minha volta me beliscassem, pois eu não conseguia acreditar que era verdade o que estava me acontecendo!

Eu pouco me importava com toda a lama que tomou conta dos meus tênis novinhos, importados que eu havia ganhado de uma amiga. Meus adidas arco-íris dos EUA ficaram todos encardidos. Foi tudo lindo! Corremos em direção ao palco,mas mesmo assim ficamos numa distância muito longe, tipo no meio. A frente já estava tomada e não tinha os recursos de hoje, como os telões e tal. Mas só de estarmos ali já valia a pena. Apesar disso eu vi cada passo dos meus astros do rock, pois o meu amigo trouxe um binóculo! Consegui ver tudo! Fiquei muito emocionada.

lembranças rock in rio 85
Foi sensacional ver o Maiden, Queen, Ozzy e até Pepeu e Baby Consuelo eu curti. Foi fenomenal conhecer o Whitesnake também. Eles substituíram o Def Leppard, que na ocasião tiveram um acidente com o baterista e cancelaram a apresentação. Fiquei triste mas virei fã do Whitesnake. Vou aos shows deles até hoje! Tudo foi épico e sensacional. Maravilhoso, mesmo sem os recursos que hoje se tem. Éramos também jovens reunidos em favor da paz e pelo fim da ditadura. O sonho do Rock in Rio se emendava ao sonho de um país democrático que também estava para nascer naquele ano. E tinha muita gente de outros estados, bem como de outros países: conheci japoneses, americanos, argentinos… pessoas de vários lugares por um mundo melhor!

kennia no rir

O Rock in Rio se tornou mais do que um festival para mim. É um evento muito especial. Fui a todas as edições até hoje, exceto a edição de 2001, pois minha filha Ana Clara estava doentinha. Faço questão de ir em todos. Sou membro do Rock in Rio clube e sempre compro as entradas, os cartões especiais, mesmo sem saber quais são as atrações anunciadas, pois confio nas escolhas da produção que nunca me decepciona e para mim, o evento por si só e as belezas do Rio de Janeiro já valem muito a pena.

O mais legal de toda a minha história sobre o Rock in Rio de 85 é que, além de me dar a oportunidade de realizar um sonho, meu amigo Paulo Afonso, da locadora, ficou com dó de mim e não descontou nem um centavo no meu ordenado! Dali em diante, só fui juntando minha graninha, fazendo meu pé de meia para os próximos RiR. E só digo que #EUVOU2015! 30 anos do festival, e trinta anos do meu sonho que nunca acabou!!

rock in rio card kennia

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5 comments

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  1. Alexandre 4 fevereiro, 2015 at 16:27 Responder

    Muito legal Kenia, Eu quase fui no de 2001 mas devido a ser novo medo de perder o emprego que eu tava, acabei deixando passar, eu sinto o Rock in Rio assim como voce, tenho todos os cards sou membro do RIR Club e compro sem nem saber as bandas. parabéns pelo seu relato muito legal.

  2. Kênnia Aparecida Amaro Fraga 16 agosto, 2017 at 13:02 Responder

    Hahaha Obrigada Pri e ao Festivalando , ficou o máximo foi minha história contada aqui por vcs…. Sensacional! E será um prazer conhecer a pessoa que comentou acima. Tmj em Setembro de 2017 🤘👊😎

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