wacken open air ao vivoWacken Open Air

Lições do Wacken para o público e organizadores de festival de metal no Brasil

Depois dos fiascos de público de alguns festivais de metal brasileiros em 2015 (e o esperado Metal Land, infelizmente, está entre eles – não por conta da qualidade do festival, mas pela falta de interesse do público),  era inevitável o aparecimento dos textos inflamados, das linhas apaixonadas enaltecendo o Wacken Open Air, mostrando a distância que nos separa das edições recentes do festival alemão,  criticando duramente o público brasileiro e, de vez em quando, até organizadores daqui. A gente também tem paixões e sentimentos, porém, sabemos que esse tipo de texto de ânimos exacerbados não ajuda muito na movimentação das coisas. A informação, por outro lado, de vez em quando serve para abrir os nossos olhos e trazer mudança.

E foi por isso que decidimos mostrar alguns pontos práticos da história do Wacken Open Air e conversar com o seu fundador, Thomas Jensen, para saber um pouco sobre a trajetória daquilo que hoje é o maior festival de heavy metal do mundo. Mas, antes de eu transcrever parte da entrevista para vocês, coloco algumas conclusões que tirei dessa conversa, bem como de outras observações que acumulo das visitas à festivais de metal pelo mundo:

Brasileiros olham para os resultados e não para o processo

Às vezes eu tenho a impressão de que, parte das pessoas que vão aos festivais de metal no Brasil – sobretudo, as brand lovers, ou seja, aquelas que só vão em festivais que já nascem mainstream (Rock in Rio, Monsters Of Rock), parece que elas acreditam piamente que um festival do tamanho do Wacken já nasceu gigante e magnífico do jeito que ele é. Posso estar errada, mas duvido que muitas delas tenham se dado ao trabalho de olhar a aba “história”, lá no site do festival. Duvido que muitas deram uma sacada nesses números aqui, por exemplo:

Wacken ao longo dos anos (1)

Fonte: Wacken Open Air Official Website

Sim, meus/minhas caros e caras, o Wacken já foi um ~festivalzinho de merda~  com apenas 6 bandinhas, para usar o vocabulário com o qual muita gente se refere aos festivais brasileiros iniciantes. Nos idos de 1990, eram apenas seis bandas e pior, seis bandas unicamente alemãs! Que coisa feia, hein? Cadê as grandes atrações internacionais, Wacken??? Aonde estão aqueles quilos de equipamentos de palcos, montagem de som, equipes grandiosas, carros, cadê?

wacken 1990

Diulgação Wacken: 1o Wacken Open Air. Só tecnologia de ponta… sqn!

wacken 1990

Divulgação Wacken Official. Equipe Wacken 1990: equipe especializada, milhares de profissionais envolvidos…sqn!

Pois bem, todo mundo precisa começar de algum lugar, e às vezes tem que ser do “zero”, mesmo (e espero que todos tenham entendido o tom irônico do parágrafo anterior). O crescimento do número de bandas e do público do Wacken Open Air veio com o tempo, como mostram os gráficos lá de cima. A diversificação do line up, com bandas de diferentes estilos e países, também veio gradualmente, como pode ser visto nos cartazes dos anos anteriores do festival.

wacken história

No entanto, parece-me que o público dos festivais brasileiros não permite que eles comecem do zero. E digo mais, essa cultura arraigada de que se tem que ser grande e igual aos europeus desde o início faz com que os próprios organizadores não se  permitam começar do zero e tentar crescer aos poucos. E isso resulta em muitos fiascos de organização que já vimos por aí, como O Metal Open Air, em São Luís do Maranhão, e o Zoombie Ritual, em Rio Negrinhos, Santa Catarina ( esse, uma grande pena, pois tinha uma trajetória legal, mas por fim, perdeu a mão do tempo de maturação de que falamos).

Um festival mainstream dificilmente vai ter os trejeitos de algo que nasce underground

Não acho ruim ter festival main stream, desde que não seja com exageros em que você não consegue andar poucos metros de festival sem esbarrar em um patrocinador. Mas, é preciso entender que os festivais que nascem underground, como é o caso do W:O:A, eles têm uma outra vibe.

Por mais que comecem a crescer e arrecadar grana, existe outro jeito de organizar as coisas e de o público interagir. Jeito que não se consegue imprimir quando existem orientações puramente comerciais.

Os festivais feitos por fãs, e não pelos figurões do mundo business, conseguem captar, com sensibilidade de fã, as atividades e atrações com as quais aquele público possui maior afinidade. Muita gente que pertence à comunidade metalhead brasileira vai ao Rock In Rio porque é fisgado por alguns nomes estratégicos. Mas não é o festival que  faz o fã de metal se sentir em casa, e realmente junto de seus pares, em uma situação imersiva.

É preciso ter em mente que, para um festival underground tomar proporções de Wacken e oferecer experiências semelhantes, é necessário tempo de maturação. E esse tempo é um esforço tanto de equipes de organizadores como de fãs, que precisam dar suporte aos festivais!

É necessário “ser”, com o pé no chão, para depois gritar aos quatro cantos que “é”

Uma coisa que é bem recorrente entre alguns festivais de metal por aqui é anunciar, desde o início, que são o maior festival no estilo.

Migxs, apenas parem. Antes de qualquer jogada ~estratégica~ (só que picareta) de marketing, é preciso de fato ser, ser com verdade e pé no chão. Não adianta se intitular o maior festival do mundo do metal sem o ser de fato.

Existem algumas pistas de que, os festivais se tornam grandes por criar um ambiente acolhedor e agradável para um determinado tipo de público, de acordo com a demanda. Nem sempre é objetivo ser o maior, mas sim ser uma experiência inesquecível e acolhedora. Daí, ser o maior vem como consequência.

#BatePapo

Thomas Jensen. Photo: Focus.de

Thomas Jensen. Photo: Focus.de

Agora, chega das minhas divagações. Dê uma olhada aqui nessa entrevista com Thomas Jensen, um dos fundadores do Wacken, que foi uma gracinha e conversou com a gente com exclusividade sobre esse assunto 😉

F:Como  vocês tiveram a ideia de criar o Wacken e como se sentiram quando começaram o trabalho?

T.J:Nós nunca pensamos sobre o evento nessa dimensão que ele tem hoje em dia. Só queríamos ter um festival para nossa música, com nossos amigos e pessoas com gostos afins. O Wacken Open Air é, desde o início, feito por fãs de heavy metal para fãs de heavy metal. E ainda continuamos fãs que tentam criar um festival maravilhoso para os metalheads, todos os anos.

F:Como foi colocar essa ideia em prática? O Wacken era sustentável desde o início ou vocês tiveram muitos problemas financeiros?

T.J:Nos primeiros anos de W:O:A nós tivemos que lutar muito forte por esse sonho. Mas sempre existiram pessoas que acreditaram e nos ajudaram a seguir em diante. Sem essa ajuda, que hora foi manual, hora financeira, nos primeiros anos, tenho certeza que o W:O:A não sobreviveria.

F:Vocês sempre usaram o slogan de maior festival de metal do mundo?

T.J:Não. Nos tornamos o que somos hoje, primeiro.  Só queríamos ter uma grande festa para a comunidade heavy metal.

F:Qual foi a coisa mais importante para o processo de construção do Wacken Open Air, tal como ele é hoje?

T.J:A coisa mais importante da história do W:O:A foi a persistência e a paixão que colocamos em nosso projeto. Houve muitos momentos em que parecia ter chegado ao fim, mas nós sobrevivemos e, ao final, funcionou!

F:Você tem alguma edição favorita/memorável?

T.J:Todo ano é especial, cada edição tem os seus destaques. Existem muitas memórias que serão sempre guardadas. Mas, destaco os s shows devastadores do Motorhead. Recentemente, as péssimas condições climáticas em 2015 e o apoio recebido de toda a comunidade.

F:O que vocês pretendem com o Wacken, a partir de agora?

T.J:Nós tentamos expandir o W:O:A para outros continentes, mas isso não deu muito certo. Aparentemente, o pequeno vilarejo de Wacken, ao norte da Alemanha, parece ser o único local ideal para a realização do evento. Mas a gente tem desenvolvido outros eventos, como o Full Metal Cruise e o Full Metal Mountain – heavy metal em um cruzeiro marítimo ou nas montanhas, seguimos tentando ser criativos.

F:Temos um situação delicada no Brasil, com relação aos nossos festivais de metal: ou eles não conseguem cumprir o que prometem para o público e bandas envolvidas, ou o público não dá suporte, não vai aos eventos. Se você pudesse dar alguma dica ou conselho a respeito disso, qual seria?

T.J:Continuem trabalhando, deixem o festival crescer! Um festival precisa dee um “espírito”,  algo que o diferencie e o faça ser reconhecido – tentem achar isso. Olhem para outros festivais, copiem as partes boas e deixem o resto acontecer!

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

14 comments

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  1. Igor Thomaz 2 dezembro, 2015 at 16:19 Responder

    Ótimo texto, Gracielle! porém, o Zoombie Ritual não se encaixa por inteiro nele… pois começou do zero e estava no caminho certo(sei disso por que fui em todas as edições), até 2014, que realmente foi um fiasco.

    • Gracielle Fonseca 2 dezembro, 2015 at 23:10 Responder

      Ei, Igor! Obrigada!

      Sim, o Zoombie teve uma trajetória que parecia resultar em algo consistente. Mas, achei que ele se encaixaria como exemplo pelo fato de ter perdido a mão do tempo de maturação do qual me refiro e o Thomas também. É preciso ter paciência, pois como mostram os gráficos do Wacken, a progressão é lenta, muito mais lenta do que apenas alguns anos, ( o tempo de existência do Zoombie foi 7?). Mas te falo que, se eles recomeçarem com uma proposta modesta, pé no chão, eu vou fazer questão de ir, de me programar.
      Acho, por exemplo, que a proposta do Metal Land foi muito massa. Porém, quem escorregou foi o público…toda hora tem alguém errado nessa história e tá difícil de ajustar o passo. Mas espero, de verdade, que consigamos ter um grande festival longevo.

      • Igor Thomaz 3 dezembro, 2015 at 09:10 Responder

        Sobre a organização ter perdido a mão, disso não há dúvidas, mas como eu disse antes, ele teve sua trajetória(desde 2008), por isso achei que não se encaixaria por completo no seu exemplo.
        Sobre o Metal Land, só acompanhei via redes sociais mesmo, mas esse lance do público complica muito mesmo, e não só em festivais, shows com duas ou três bandas não tem sido muito diferente por aqui também(SC, PR). Uma pena! abs.

        • Gracielle Fonseca 3 dezembro, 2015 at 12:23 Responder

          Sim… na verdade foram 7 edições do Zoombie, né? É, se tivesem esperado mais um pouquinho, segurado a onda das expectativas do público e tal, quem sabe não teriam prejudicado a imagem. Mas não acho ruim que eles tentem se reerguer, acho que deveriam, inclusive. Algumas coisas a gente não consegue arrancar da organização do Wacken, mas sabemos que entre 1990 e 2010 nem tudo foi maravilhoso para eles. Rolaram cancelamentos e tal…

          abs!

  2. Marcos Garcia 2 dezembro, 2015 at 16:50 Responder

    Excelente texto!
    Uma explicação maravilhosa, mas vale ir um pouco adiante, Gracielle: podemos também trabalhar nos aspectos negativos do nosso público por aqui, de uma forma conscientizadora.
    Está de parabéns!

    • Gracielle Fonseca 2 dezembro, 2015 at 23:17 Responder

      Obrigada, Marcos! É essa a ideia! Como falei, o tempo de maturação de um festival deve contar com o bom senso dia organizadores e com o apoio do público. Todo mundo tem que ter paciência, senão será impossível!

  3. Marcus Yog Coelho 2 dezembro, 2015 at 17:18 Responder

    Concordo em grau, número e gênero. Temos hoje vários promotores no brasil envolvidos com shows, e pq não se juntarem e criarem um festival? Pq atualmente está cada vez mais inviável. Menos pessoas indo aos shows (pelo menos aqui em bh tenho visto isso), ingressos cada vez mais caros (efeito borboleta da alta do dólar) e atual crise brasileira… Infelizmente (com um pouco de felizmente) estive no MOA, e o que pude perceber foi uma tentativa de cópia do wacken, mas com um excesso de amadorismo… se tivesse começado pequeno, como o wacken, apenas com bandas nacionais, duvido que teríamos 100 pessoas… no entanto, hoje temos o Roça n’ roll no interior de Minas que vem mudando um pouco esse cenário… se não me engano, nos último 3 festivais, houve a adição de bandas gringas, o que acabou chamando a atenção de pessoas do brasil… vi pessoas de são paulo, brasilia, rio, curitiba e até uns baianos no festival… atualmente, é o único festival nacional que venho apostando…

    • Gracielle Fonseca 2 dezembro, 2015 at 23:21 Responder

      Ei Marcus, obrigada! É verdade. O Roça n Roll é uma esperança, sem dúvida! Eu já fui a duas edições, adoro o festival – apesar de ter minhas ressalvas com relação à estrutura. Mas precisamos de cooperação, entre o público e os produtores para a coisa ficar mais legal!

  4. Fabiana Alves 4 agosto, 2016 at 09:49 Responder

    Oi Gracielle adorei o texto. Adoro rock e as suas mil e uma vertentes e fico pensando que o mais pega é a questão de preço. Aqui no Brasil tudo é muito caro. Concordo que tem de ser um conjunto para podermos engrenar com um belo festival brasuca, mas o que seria necessário para o público se engajar? Os produtores podem seguir as referências claro e o que eu entendi no seu texto seria a paciência para poder maturar e crescer o festival, nesse quesito entra claro poder ter uma boa infraestrututra de administração. Mas e na questão de público? Qual é a sua opinião? Tem de educar? Ou é ser sincero e não prometer mais do que pode entregar, a velha máxima do Marketing?
    Eu sou jornalista também, fã de rock e adoro o site de vocês. Pretendo ir em grandes festivais como vocês, mas as finanças é o que aperta, por enquanto vou me informando com vocês.
    Beijos.

    • Gracielle Fonseca 9 agosto, 2016 at 02:33 Responder

      Ei, Fabiana!! Que demais que vc curte o site!

      Pois é, para mim o segredo é tentar ficar antenado com aquilo que o público gosta no âmbito nacional, ou às vezes com atrações internacionais menos caras, ou aproveitar a oportunidade de parceria com outros produtores para fechar mais shows com melhor preço. A construção de um line up legal de baixo custo é um desafio, mas nem sempre é impossível.

      Acho que nunca deve ser prometido mais do que se é capaz de entregar, pois isso compromete a imagem do festival de forma absurda. E sim, o público também precisa entender que ele é parte crucial para o sucesso dos festivais. Portanto, é preciso criar uma cultura de festival. Quando há um público consistente, os festivais tendem a durar e trazer coisas cada vez mais legais. Um exmeplo é o Roça n Roll, que já está aí há tanto tempo no sul de minas, tem um público cativo e tenta trazer atrações gringas legais sempre que possível. Tudo bem que ainda não decolou para ser um super festival, ainda, mas acho que é parte do processo.

      Um beijão e obrigada pela audiência =*

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