festivais de música na américa do sulFoto destaque: Mariana Reyes/Divulgação. Fotos do post; Priscila Brito

A América do Sul que conheci através dos festivais

Uma das coisas que aprendi viajando para festivais é que eles oferecem uma oportunidade de se aproximar dos locais, seus hábitos e comportamentos de um jeito diferente daquele que os roteiros turistões proporcionam. Confesso que eu mesma coloquei essa conclusão em xeque quando decidi viajar de uma vez só para três festivais com um lineup quase idêntico em uma região onde a gente se enxerga como irmãos ou vizinhos – o Estero Picnic, na Colômbia; o Lollapalooza, no Chile; e o Asunciónico, no Paraguai, que tiveram todos shows de Skrillex, Calvin Harris, Jack White, Robert Plant e mais um tanto de outros nomes repetidos (e que eu ainda veria no fim da viagem, no Lolla brasileiro). Países com realidade mais próxima do meu país, shows idênticos, público com perfis praticamente idênticos, que graça teria isso?

Teve muita graça, ainda bem, pois ao final tive muito mais certeza sobre como os festivais são a cara do lugar onde eles acontecem (tanto no que há de bom quanto de ruim), mesmo quando eles parecem tão iguais e seguem modelos na maioria das vezes tão globalizados.

Bogotá e Estereo Picnic

colombia bogota

Bogotá já vem carregando há um tempo a fama de capital descolada, pulsante e moderninha. Quando recordo o Estereo Picnic reconheço tudo isso nele e não vejo possibilidade alguma de um festival como esses se encaixar no cenário de Assunção, por exemplo.

festivais de música na américa do sul

Tem um veado gigante que te recepciona na entrada do mercadinho que reúne os designers mais hipsters da cidade e a proposta de imersão do festival é original e diferente do que já vi até agora: um grande lounge a céu aberto com blocos de feno, camas e cadeiras espalhadas pela pista – um cenário moderno com uma pitada de caos, que também faz parte do que é Bogotá, uma grande metrópole latino-americana com problemas estruturais. A propósito, a mobilidade é um deles e é coincidentemente no acesso que o Estereo Picnic mais peca com o público, ao realizar o festival num local lindo, mas situado em uma região com oferta deficitária de transporte público e um trânsito ruim de doer.

Santiago e Lollapalooza Chile

santiago chile

Aí eu chego em Santiago, essa capital toda certinha, arrumadinha e organizada para os padrões da nossa região, e me deparo com um festival idem. Na verdade, foi o inverso: desembarquei em Santiago direto para o Lolla Chile e só dois dias depois, após o festival, é que saí para conhecer a cidade. A facilidade de ir e voltar pro Lolla foi a mesma facilidade que encontrei para ir e voltar das minhas longas caminhadas à tarde pela cidade. Transporte de massa que funciona e prioridade para o pedestre quando necessário, seja nas múltiplas entradas do festival para evitar filas do público transbordando pela rua ou nos “paseos” do centro de Santiago, conjunto de vias exclusivas para pedestres.

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A calma que eu vi o pessoal demonstrar na estação do metrô na volta do Lolla, quando uma situação de aglomeração favoreceria muito mais o tumulto que a paciência, foi a mesma que presenciei todos os dias nas plataformas ao notar que lá eles conseguem fazer o básico, o óbvio: abrir espaço e esperar todos os passageiros saírem do trem para só então embarcar.

Assunção e Asunciónico

assunção paraguai

Do metrô eficiente de Santiago para os ônibus retrô de Assunção, encontrei no Asunciónico um festival praticamente à moda antiga, quando o que importava era só a música e uma bebida boa. As ativações de marca, headliners obrigatórias nessa nova era de festivais, estavam ali relegadas a segundo plano e tinham um quê de meia-boca. Não havia nada tão ou mais interessante (e importante!) do que os dois palcos, onde os shows se alternavam um após o outro, sem intervalos ou conflitos de horários. Esse climão das antigas também salvou o público de alguns clichês já tornados universais nos festivais: as meninas lá não caíram ainda na armadilha fácil e globalizante do uniforme de festival; coroas de flores, quimonos e cocares não eram a última moda. Ufa!

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Seguindo um ritmo menos frenético de modernização, imposto por condições históricas pouco justas, onde passado e presente ficam juntos de uma maneira tão evidente – ônibus de décadas atrás circulam junto com uma frota aos poucos renovada – Assunção viu nascer um festival com um pé lá atrás e outro no aqui e agora: o lineup mais atualizado possível dentro de um formato de festival quase esquecido no tempo (infelizmente). Here, there, everywhere, a relação entre festival e cidade é assim. Cara de um, focinho do outro.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora também coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Além de uma das mães do Festivalando, sou colaboradora da Mixmag e do Brasil Post e autora do Porque eu gosto de música. Também ajudei Paul McCartney a falar uai em pleno Mineirão.

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