Edição histórica: melhores shows do Graspop 2016

O Graspop é um festival belga existente há 20 anos, todos os meses de julho. Antes, algo local e feito por e para locais. Hoje, é um dos festivais de heavy metal mais importantes no mundo. A edição de 2016 (17, 18 e 19 de junho) veio confirmar isso. Um line up que criou expectativas em todas e todos e as cumpriu. Como uma fórmula que tem ingredientes tais quais Black Sabbath, Iron Maiden, Twisted Sister, Saxon, Anthrax, Slayer, Megadeth e outros nomes de peso poderia dar errado? É possível, porém, mais difícil. Por isso, até mesmo a chuva a lama e alguns pecados de organização acabaram menos importantes perto da grandeza dos melhores shows do Graspop 2016.

Despedidas e aniversários

Black Sabbath Uma das atrações mais esperadas da primeira noite de Graspop e, certamente, um dos melhores shows daquele mesmo dia. Assim como eu, muita gente estava cansada e triste com a lama e a chuva, mas quando aqueles senhores entraram no palco, a introdução da música Black Sabbath fez da chuva apenas um elemento cenográfico da grande celebração que se iniciou ali. Estávamos todos diante dos criadores, a escutar embasbacados a criação musical que leva todos os anos mais de 150 mil pessoas a se reunirem naquele mesmo lugar- e em tantos outros, para se divertir ouvindo música pesada.

Aqueles senhores à nossa frente estavam se despedindo. The End tour marca o encerramento das atividades da primeira banda de heavy metal do planeta. Mas, sabemos que tal despedida não é definitiva. Afinal, em várias notas de músicas de heavy metal, no jeito de se vestir e se portar dos artistas, encontraremos sempre traços do Black Sabbath.

Sem muitas novidades, o set list seguiu no show daquele noite como em vários outros dos festivais e da turnê. Começaram o show com Black Sabbath, seguiram com Fairies wear boots, After forever, into the void e por aí vai, terminando com Paranoid.A única coisa que percebi diferente entre o show do Graspop e do Brasil foram as imagens escolhidas para o telão. Por exemplo, durante a execução de Dirty Woman no Brasil foram exibidos videos com fotos de Betty Page.

Ozzy seguiu empolgado e brincalhão, exigindo aos fãs não apenas que cantassem junto – o que não era necessário pedir, mas que cantassem mais alto.

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Satyricon A obra de arte da carreira do Satyricon executada na íntegra, ao vivo. A turnê especial em comemoração aos 20 anos de Nemesis Divina foi privilégio para aqueles que viram a passagem da banda por alguns festivais da Europa neste ano. O Satyricon fez, provavelmente, o show mais emocionante dentre aqueles que vi a banda fazer. Agradeço a oportunidade de ter vivido para ver isto.

Nenhum vestígio de problema de saúde ou abatimento transpareceu ao vocalista, que havia sido diagnosticado com tumor há alguns meses atrás. Vai ver que é na própria música que se encontra a cura das nossas mazelas. A banda estava em sua condição ótima, podemos dizer assim, considerando-se que Frost tocou com um estilo mais rápido e agressivo, diferente daquele desenvolvido pela banda recentemente.

Nemesis Divina foi tocado de acordo com a sequência do álbum, exceto por Transcedental Requiem que foi trazida para antes de Immortality passion. Em seguida, e quando toda a audiência já se encontrava em êxtase musical com tamanha beleza do que foi visto e ouvido, Satyr solta: agora, vamos tocar algo mais rápido, agressivo. Quero ver um mosh pit, e quem sabe até mesmo sangue. Bom, achei que ele tocaria algo dos primeiros albuns. No entanto, anunciou Balck Crow on a Tombstone, emendando Fuel for hatred e K.I.N.G.. É, acho que só no momento em que o Satyr atribuiu mais velocidade e agressividade à essas canções é que pude notar que algo não estava bem com a cabecinha dele, hahaha. Brincadeiras à parte, também foram músicas que animaram a audiência e fizeram com que o palco Marquee, dedicado a bandas extremas, tremesse!

Twisted Sister- O Graspop 2016 não poderia ter sido fechado de maneira melhor. Twisted Sister fez com que eu me sentisse – bem como toda aquela multidão de mais de 100 mil pessoas, como se estivéssemos todos em uma festa. Festa mesmo, onde todo mundo dança, canta e fica bêbado. Foi uma noite inesquecível e sem chuva, finalmente. Quase todos os artistas daquele dia fizeram piadinhas com isso, de que eles teriam feito um trato para que a chuva parasse. Sinder também agradeceu a chuva “bitch” por ter parado.

Dee Snider é mesmo um grande frontman, um mestre de cerimônias sem igual, e diretor de palco também: luz na banda agora, luz no público, apaguem a luz – ele mandava os técnicos executarem, e assim orquestrava um dos maiores espetáculos de rock e metal que eu teria visto na minha vida. A participação especial que Snider fez durante o show do Rock in Rio 2015 foi sensacional, deixou todos querendo ver um show completo do Twisted Sister, o que logo tratei de fazer.

Snider garantiu que eles estavam se despedindo, mesmo. Ele deixou claro que esse não era o mesmo adeus do Scorpions, não era o Ozzy Osbourne “no more tours”. Falou também que já era hora do Twisted Sister encerrar as atividades, “afinal, são 40 anos de carreira e a gente nem tem um eddie ou um avião, como o Iron Maiden”, brincou com o outro headliner do festival que tocou antes de eles entrarem no palco.

No início, as imagens do telão já nos mostraram o que estava por vir daquele grande show: as capas de albuns e fotos de diversas fases da banda eram um indício de que iniciaríamos uma deliciosa recapitulação histórica do rock ‘n’ roll faceiro da banda.

E assim foi, clássico atrás de clássico, incluindo Burn in hell, I wanna rock, The fire Still Burns, I’m me, The Price, I believe in Rock ‘n’ Roll e claro, We’re not gonna take it. O show teve muitos ápices, incluindo o momento da execução de The Price, com homenagens lindas aos mortos do heavy metal no ano passado, entre eles, AJP, baterista original do TS e que estava sendo substituído pelo Mike Portnoy nesta turnê de despedida.

We’re not gonna take pode ser considerado uma espécie de hino do GMM 2016, pois além de ter sido repetido por todos durante o show, também foi repetido durante a madrugada de fim de festival, nas filas dos banheiros, nos shutle e até mesmo no aeroporto na hora de voltar para casa havia alguém repetindo “we’re not gonna take it, no, we ain’t gonna take it…”. E é claro, esse coro está se repetindo em minha cabeça neste momento, ainda. 110 mil pessoas cantando tudo isso e se divertindo em um clima de festa delicioso. Obrigada, Twisted Sister, por esse ótimo momento!

Os headliners Absolutos

Iron Maiden Mal se podia andar entre os palcos principais no momento em que a donzela estava para entrar no palco. Eles tocariam apenas às 21h, mas desde a manhã já havia gente plantada na grade, para esperar uma das bandas mais queridas. O Iron Maiden estava ali para tocar seu novo disco, The Book Of Souls, show que já vimos no Brasil e relatamos aqui. Não houve nada muito diferente daquilo que foi feito para os shows da turnê que se deu também fora dos grandes festivais. E, da mesma forma, o show continuou morno no início, com as músicas do novo disco, que não são tão potentes quanto as demais.

Children of the Damned animou mais as pessoas, mas logo seguiram-se mais músicas novas. The trooper e Poweslave fizeram os fãs esquentarem as cordas vocais. Mas em seguida, Bruce começou a entoar Death or Glory, com um macaquinho de pelúcia no pescoço e mais músicas do novo album que não cativam tanto.

Brincou com a idade da plateia, dizendo que haviam muitos legados por lá – que preferia chamar de legado ao invés de velharia, ou pessoas velhas, ahaha. Também brincou com a interrupção do show pelo som de guitarra que atravessou uma imprória passagem de som no palco do Twisted Sister. Dee Snider até brincou com isso depois, dizendo que iria despedir o ténico. Dee Sinder fez a plateia inteira chamar o cara de idiota, hahahaa.

Um belo coro com fear of the dark e wasted years já era bem esperado. O final com emoção e mensagens de paz com Blood Brothers. Foi uma bela apresentação, mas certamente não foi a mais empolgante do festival, apesar de estar completamente lotada. Mas o Iron é Iron, e sempre fará grandes shows, para uma legião de fãs, em qualquer lugar.

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King Diamond –
Quando as primeiras notas ultra agudas foram emitidas pela majestade das trevas, muitas pessoas estavam  amontadas perto do palco principal 2, mesmo debaixo de uma chuva rala, para participar de um show que parecia até mesmo um culto, uma adoração aos seres demonácos. Certamente, poder-se-ia até sentir algum cheirinho de enxofre exalando daquele palco. Uma apresentação teatral,cheia de clássicos da carreira solo de King Diamond e também do Mercyful fate.

As pessoas tentavam cantar junto e imitar os falsetes de Kim Petersen, o que torna os shows do rei ainda mais engraçados. Bem teatral, o show contou com um ótimo trabalho de cenografia, tal como o concerto do Wacken em 2014, e com as performances de uma atriz e King, encenando rituais ocultistas diante de uma grande audiência. Certamente, um dos shows mais bacanas do festival.

Slayer
Em um certo momento da vida eu havia me recusado a assistir a mais shows do Slayer. Eram muitos, já tinham se tornado muito repetitivos para mim. Porém, quando entraram no palco principal do Graspop, no sábado, eu percebi a força da música de trabalho atual, a Repentless. Foi de fato muito brutal estar no meio daquela plateia que logo abriu vários moshs. Porém, em seguida foram poucos os trabalhos contemporâneos apresentados. Os clássicos tomaram conta do show e foram executados de maneira menos burocrática, como eu tinha visto algumas vezes, mas ainda assim menos interessante do que poderiam ser.
Mesmo assim, uma grande quantidade de fãs veio assistir e bater cabeça ao som de uma das bandas mais importantes do thrash metal.

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Megadeth – Dave Mustaine tinha uma performance vocal desta vez bem melhor do que aquela que vi na abertura do show do Black Sabbath no Brasil, em 2013. Além disso, a banda ainda contava com o talento do brasileiro Kiko Loureiro, que toca tão em sintonia, faz os backing vocals e tem uma presença de palco tão interessante que não parece ser um membro substituto.

O set list foi bem selecionado, equilibrando músicas do passado com alguns trabalhos novos. O show foi um dos mais animados. Desde a primeira música, a Hangar 18, passando por Tornado of Souls, Sweating Bullets, Peace Sells e Holly Wars, banda e público deram 100% de si.

O presente promissor

Volbeat- Abram alas! Havia mais gente no concerto destes caras do que talvez houvesse em toda a Dinamarca, país de origem do Volbeat. Eles não são muito conhecidos no Brasil, mas, aqui fora eles se tornam cada vez maiores, desde o segundo álbum lançado. A banda tem algumas sacadas bem pop-rock e está em pé de igualdade ao Muse em muitos quesitos. Um rock n roll faceiro, potente e descontraído, letras e refrões do estilo chiclete que gruda na sua cabeça. Sim, eles sabem a fórmula do sucesso e uma multidão de pessoas estava a cantar junto e comprovar que Volbeat não é qualquer bandinha.

Achei estranho desde o início eles serem um dos headliners do festival, mas desde o momento em que cheguei à área do evento e me deparei com tantas camisas do Volbeat comecei a desconfiar de que o show deles de fato teria uma grande adesão. E a adesão não foi apenas de presença, mas sim de corpo e alma. Cada fã cantava todas as músicas, estrofe por estrofe.

O Show reuniu pessoas de todas as idades que, além de cantar, não se incomodaram hora alguma em sacudir o esqueleto e até mesmo bater cabeça junto, pois algumas músicas permitiram isso, devido ao peso.
Tudo muito bem executado e um vocalista que parece ter se emocionado com sinceridade ao ver tantas pessoas enlouquecidas naquele show, mesmo debaixo de uma chuva muito chata que não parava! Foram 18 músicas ao todo, cantadas do início ao fim pelos fãs.Para mim, as mais interessantes ao vivo foram The Devil’s Bleeding Crown, Guitar gangsters and Cadillac Blood, Hallelujah Goat, 16 Dollars, Radio Girl e The mirror and the ripper… nossa, quase todas, na verdade!

Caso você ainda não conheça bem Volbeat e gosta de rock ’n’ roll com pegada e descontração, compensa muito pesquisar mais e ir a um show dos caras!

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Myrkur- Meio dia foi o horário que reservaram à Myrkur no Graspop Metal Meeting, uma das poucas mulheres a fazerem show neste festival de metal. Desde então, é possível problematizar que esse horário diz muito de escolhas machistas na construção da grade do festival, pois seria um horário que desprivilegiaria a apresentação da artista, que supostamente ficaria esvaziada.

Mas o feitiço se virou contra o feiticeiro, por assim dizer, pois Amalie e sua banda levaram um grande número de pessoas ao palco Marquee naquele primeiro dia de festival. Myrkur está se tornando mais conhecida desde 2015 e a talentosa e competente artista já conseguiu muitos prêmios em sua jornada. Amalie é multinstrumentista e possui um domínio impressionante das técnicas vocais – não é algo fácil variar entre o lírico e o gutural rasgado do black metal. O mais conveniente e feito por artistas homens dentro do metal é chamar uma pessoa para cada vocal. Amalie dispensa isso. Faz as duas vozes, compõe letras excelentes, cria arranjos e riffs interessantes, além de tocar piano e violino.

Eu havia assistido à primeira apresentação de Myrkur no Roskilde festival 2015, que foi fantástica, mesmo que toda a banda ainda estivesse um pouco crua e insegura para os palcos. Agora, o conjunto se mostrou mais entrosado e confiante, o que fez o show ser ainda mais interessante.

Recentemente, Amalie foi alvo de críticas machistas e até mesmo acusações de ser uma “farsa”. Se é mesmo uma farsa, preciso dizer que multidões têm sido enganadas ou hipnotizadas, pois a dinamarquesa faz então muito bem o papel de uma grande artista, fzendo  shows tão bons como este do Graspop, que misturam a delicadeza e a brutalidade – o que todos tanto tentam separar no meio metal e atribuir a primeira característica sempre à mulher, e a segunda como exclusiva do homem. Talvez por unir isso, com muito talento, Amalie desperte tanta chama dentro dos haters de plantão que vão ter que engolir mais uma grande apresentação da musicista e multinstrumentista dinamarquesa.

Crobot – Foi um dos primeiros shows do último dia de festival e que certamente não ganharia tanta atenção, ainda mais conflitando horários com o Overkill, um dos expoentes do thrash metal. Mas, a minha curiosidade falou mais alto. Fui ao encontro desta banda americana e não me arrependi nem um pouco.

A banda é ligada nos 220v, não param e a performance de todos foi impressionante. Um hard rock cheio de pitadas de blues, com groovy surpreendente. Eu não os conhecia, mas agora que vi o show, já não saem mais da minha playlist do spotfy.

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Todos eles entendem que show de rock e metal tem que ser algo além de robôs semi articulados tocando guitarras. O vocalista e o guitarrista da Crobot, principalmente, mostraram que o rock não se distanciou definitivamente das suas origens. Os quadris soltos e as acrobacias com a guitarra fizeram tudo ficar especial. Crobot fez uma apresentação hipnotizante. Caso ainda não os conheça, corra aqui para dar o play.

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

3 comments

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  1. Renan 21 junho, 2016 at 15:27 Responder

    Crobot é Norte Americana, e não Belga Gracielle. Eu assisti a alguns shows via streaming do Hellfest e do GMM, e gostei de vários shows. Curti bastante o Overkill no Hellfest e o Behemoth pelo GMM. Realmente o Volbeat não me surpreende em ter mais notoriedade na Europa que na América, pois basta ver que eles estão tocando em Download, Hellfest, Sweden, Rock am Ring/Rock im Park fora Grasspop e Copen Hell. A única coisa que tenho que torcer é para que venham ao Rock In Rio em 2017. Resumindo, Volbeat é da quelas bandas para você assistir num por de sol tipo às 18h num RIR ou às 20h num GMM. Parabéns pela resenha. A parada agora é Copen Hell.

    • Gracielle Fonseca 21 junho, 2016 at 15:59 Responder

      É verdade, Renan. Obrigada. Eu tinha anotado errado a origem deles, tinha corrigido mas foi outra versão do texto para o site. Também estava sem o link, mas agora está tudo certinho, hehe. Obrigada! Agora é Copenhell!uhu!bjsss!

  2. Marco 28 junho, 2016 at 11:50 Responder

    Sobre o Volbeat: curiosamente a primeira vez que ouvi uma musica da banda foi “Heaven nor Hell”, justamente numa radio americana! Ja tinha ouvido um disco ao vivo, então sabia o que esperava, mas nao imaginava que a Vibe do lugar seria tão louca e um dos melhores shows do festival…..
    Sobre o festival, apesar de uns perrengues por conta da chuva, fiquei apaixonado pelo festival e pelo povo europeu, e espero ter dinheiro para voltar no ano que vem!!!
    …..e sobre o Twisted Sister: não so pra mim foi o melhor show do festival (e olha que fui para la pelo Black Sabbath, e eles nao decepcionaram), como fiquei com “We’re not gonna take it” por 1 semana na cabeça, hahahahaha

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