expansão global do szigetBence Szemerey/Sziget/Divulgação

Chupa essa Frutella! – As falhas estruturais do Sziget

Quem já leu algum texto sobre o Sziget aqui no Festivalando já sabe: o festival que acontece em Budapeste, na Hungria, foi a nossa pior experiência na primeira temporada de festivais europeus que encaramos. Temos razões comuns e particulares para tanto ódio nos nossos coraçõezinhos (e vamos expô-las aos poucos aqui), e algumas delas têm como raiz falhas em algum ponto da estrutura oferecida ao público.

Não chegam a ser falhas criminosas, mas são injustificáveis para um festival que se gaba tanto de sua grandiosidade – que, por sinal, é só fanfarronice. “Sziget” quer dizer ilha em húngaro, mas, como bem notou a Gra, ele bem que poderia se chamar “Campinho” porque levamos menos de três horas para percorrer a área total do evento, pouquíssimo tempo se comparado a outros gigantes nada fanfarrões (e lindos), como o Roskilde e o Wacken. Ao veredito:

Transporte
Chegar até a Old Buda Sziget, uma das ilhas do Danúbio, local onde o Sziget acontece, é muito fácil. Sair de lá também. Tudo graças ao bom sistema de transporte público de Budapeste. O trem estilo lata velha vintage dado de presente à Hungria pela União Soviética deixa o público em uma estação a menos de dez minutos da entrada do festival. Tarde da noite o trem continuava funcionando. E apesar do metrô não funcionar madrugada adentro, há linhas noturnas de tram e trem que utilizávamos para voltar pra casa sem ter que esperar mais de dez minutos. Além de eficiente, o transporte é barato. Os trens costumavam ir cheios, mas nada pior do que ter que fazer transferência na Sé às 18h de uma quarta-feira.

Pagamos 63.000 forints (é esse tanto de zero mesmo. Cerca de R$ 63) por um bilhete que nos dava acesso ilimitado a trem, metrô, ônibus e tram durante 15 dias. O Sizget também oferece um passe nesses moldes, específico para os dias do festival, e que também dá desconto em atrações turísticas. Para nós não valia a pena porque cobria um período menor do que aquele que ficamos em Budapeste, mas pode ser uma alternativa a ser avaliada para quem pensa em ir ao Sziget.

Mas o festival é um grande trapalhão, não se esqueça, e é claro que ele teria que avacalhar em algum ponto o nosso deslocamento. A grande falha nesse aspecto diz respeito à má gestão do fluxo do público. Como o transporte majoritário era o trem, as pessoas chegavam aos milhares de uma só vez. Normalmente, fecha-se o trânsito nas ruas ao redor do local do evento para que haja mais espaço para o público circular e escoar. A organização do Sziget não fez isso, e ainda limitou a passagem do público a cercadinhos espremidos nas calçadas de ruas já naturalmente estreitas.

Resultado: as pessoas se aglomeravam, ninguém conseguia andar e formavam-se filas enormes na entrada, que demoravam bastante para fluir não só pela aglomeração como também por causa da revista. Depois de perder alguns shows por causa desse atraso na entrada aprendemos que era preciso sair com muito tempo de antecedência para gastar na fila de entrada.

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Fotos: Gracielle Fonseca e Priscila Brito

Informações
O site do Sziget cumpre bem o papel de orientar com informações práticas quem está planejando uma visita ao festival, mas prepare-se para ser desorientado quando chegar lá. A obsessão em ser grande e oferecer tudo ao mesmo tempo agora para o público é a grande marca do evento e também seu calcanhar de aquiles, já disse isso aqui.

Isso se expressa nos mínimos detalhes, como no passaporte entregue os szitizens (trocadilho brega com Sziget e citizen, cidadão em inglês) na entrada do festival. O objetivo é oferecer um guia informativo com todos os 7 zilhões de atrações, mas o que se tem em mãos é um caos de cores e diagramação, com um pseudo aspecto ~xovem e descolado~, dados jogados aleatoriamente, sem nenhum critério de agrupamento. Nem índice a coisa tem, e estamos falando de uma publicação de quase cem páginas.

O mapa da área do festival, por exemplo, tem uma legenda cujos itens são identificados por números. Mas os números não estão em ordem crescente. Eles estão divididos por cores e as cores não estão agrupadas. Nem deveriam, porque a distinção por cores não significa distinção de atrações ou espaços com características comuns. As cores, na verdade, não significam nada. Entendeu?

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Para ninguém dizer que estamos de mimimi, temos um exemplo bem pior de de despreparo com informação fornecida para o público. Quem compra o ingresso pela internet precisa trocar o voucher recebido no ato da compra por uma pulseira que serve como ingresso para o festival. Lá fomos nós três fazer isso no primeiro dia.

Fomos a uma tenda que indicava a troca de ingressos e depois de alguns minutos na fila descobrimos que o local era apenas para troca de ingressos de estudantes – mas não havia nenhuma sinalização que informasse sobre essa peculiaridade. Fomos então informadas que deveríamos ir a uma outra tenda e seguimos as direções dadas por uma das funcionárias. Quando chegamos ao local, ficamos em dúvida se lá era mesmo o lugar certo para a troca, por isso perguntamos ao funcionário que estava na entrada da tenda se era ali mesmo (e mostramos o voucher para ele ter certeza do que estávamos falando). Ele confirmou que deveríamos ficar na fila. Depois de uns 40 minutos debaixo de sol, já prestes a entrar na tenda, duas funcionárias checaram os vouchers novamente e confirmaram que deveríamos fazer a troca ali. Mas quando entramos, fomos informadas que estávamos outra vez no local errado. Mesmo com outros quatro funcionários tendo dito o oposto. #TrapalhõesFeelings

Hidratação e comida
Água potável, você já deve saber a essa altura, só é gratuita no Roskilde, o festival que é uma mãe para o público. Assim como nos demais, no Sziget a sua sede só morre em troca de algum dinheiro. Quando o assunto é comida, a oferta é grande e variada, com lanches rápidos, refeições e uma infinidade de bares, inclusive os ruin bars, bares tipicamente húngaros.

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Os preços não eram exorbitantes, mas ainda assim um pouco acima do que se paga em estabelecimentos de Budapeste, uma cidade lindamente barata. Por exemplo, havia muitas guloseimas e gordices de fast food variando entre cerca de R$ 10 e R$ 15, mas com essa mesma quantia a gente tinha um belo almoço em um restaurante italiano.

Conectividade
Nenhum festival que a gente visitou nesta primeira temporada passou com louvor no teste da conectividade, e com o Sziget, avacalhado por natureza, não seria diferente. Na verdade, para o festival húngaro ficou reservada a história mais pitoresca envolvendo conexão de internet, e quem teve o prazer de protagonizá-la foi a Gra. Ela conta como foi:

“Cheguei toda feliz quando vi a tenda da internet. Pensei que ia ser possível ter senha de wi-fi, algo do tipo. Resolvo perguntar para o cara por que tinha um tanto de gente meio embolada no local. Aí ele disse que a internet só poderia ser acessada do computador dentro daquela salinha. Não existia wi-fi. A tenda da internet: coisa mais ridícula da conectividade festivaleira”. #LanHouseFeelings

Eu também tenho minha própria historinha de internet no Sziget. Encontrei um lounge de patrocinador que oferecia wi-fi gratuito (sim, em algum lugar da ilha da breguice existia internet sem fio), mas para acessá-la era preciso seguir uma série de instruções em húngaro que apareciam na tela do celular.

Bom, você deve estar pensando: se o festival é na Hungria, natural que esteja tudo em húngaro, não? A priori, faz sentido, mas o fato é que o Sziget é um festival que não só tem consciência de que recebe um público multinacional, como se vangloria em ser uma “comunidade global” que recebe gente de mais de 60 países. Isso é reverberado à exaustão. Tudo dentro do festival tem sinalização em húngaro e em inglês, por que tem que ser diferente com a internet? Porque o Sziget é um trapalhão, ora bolas.

Limpeza e banheiros
A área do festival é razoavelmente limpa, apesar da pouca disponibilidade de lixeiras. Passa a milhas de distância do quase lixão a céu aberto que é o Roskilde, por exemplo. Parabéns para o público. Não podemos dizer o mesmo da organização, que deixou um vazamento de esgoto correr solto por dois dias na entrada do festival.

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Quanto aos banheiros, as temíveis e odiadas cabines químicas estavam lá, mas também tínhamos à disposição os nossos já queridos banheiros com água corrente instalados em trailers. Até o fim do Sziget eles estavam em condições razoáveis de uso.

Compra de ingresso
Essa foi a parte menos estressante do processo. Compramos pelo internet utilizando cartão de crédito internacional. A aprovação da compra e o envio do voucher foram imediatos. Dica: se você pensa em ir ao Sziget, quanto mais cedo você comprar o ingresso, mais barato você paga. Ele sempre acontece em agosto, mas as vendas começam nos últimos meses do ano anterior. Fui comprar só em abril e paguei 200 euros (cerca de R$ 600) pelo ingresso de sete dias, mas se tivesse comprado logo que as vendas foram abertas, em dezembro de 2013, teria pago 140 euros (cerca de R$ 430).

Segurança
Disse lá no início do texto que o Sziget tem problemas de gestão do fluxo de pessoas e isso não vale só para o acesso ao festival. Vale também para a circulação nas áreas internas. Como existe uma obsessão descomedida no sentido de lotar o espaço com estandes, barracas, bares e o escambau, resta ao público uma faixa muito estreita para se deslocar.

O festival tem um público estimado em 400 mil pessoas que vão lá um dia só, dois, ou até cinco e sete (dependendo do tipo de ingresso), e o resultado é que caminhar de um lugar para o outro é sempre em ritmo de procissão de igreja. Pior: o pouco espaço que sobra é dividido com carros e motos que surgem aleatoriamente no caminho em tese destinado exclusivamente ao público.

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O Sziget também foi bastante irresponsável ao escalar o astro pop europeu Stromae para uma tenda com lotação limitada e, prevendo a alta demanda, orientar o público a se dirigir com antecedência para o local. Todo mundo seguiu a recomendação e presenciamos muito empurra-empurra, correria e gente caindo, como eu e a Paula contamos aqui.

A segurança só levou a sério seu papel na revista feita na entrada, vasculhando mochilas e bolsas com muita paciência. Vimos um fiscal achar (e barrar) uma garrafa de vidro meticulosamente escondida dentro de um cobertor (tem gente que vai todo equipado por causa do acampamento).

Mesmo se diante de tudo isso você ainda animar ir ao Sziget, eu digo: vá. Sério. Porque no fim das contas sou da opinião que a gente precisa ver tudo com os próprios olhos para ter uma experiência e conclusão próprias. Se você ficou desanimado com tudo o que eu disse, pode ter certeza: a gente viveu tudo isso mesmo. Mas em ambos os casos, não deixe esse relato influenciar sua decisão de ir ou não a Budapeste. Com ou sem festival, a cidade é linda, agradável, de custo baixíssimo e cheia de coisa boa pra fazer 😉

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Informações5
Hidratação e comida9
Conectividade5
Limpeza e banheiros8.5
Segurança6
O Sziget é um festival com mania de grandeza e acaba tropeçando nessa ânsia de ser gigante. A gestão do fluxo de entrada do público é ruim, o que gera muitas filas; e os espaços internos de circulação são reduzidos, já que todo e qualquer espaço é ocupado com alguma atração aleatória. Para piorar, carros e motos dividem espaço com o público em alguns desses espaços. O quesito mais brilhante do festival é o acesso, mas isso se deve mais à qualidade do transporte em Budapeste que à eficiência da organização do festival.
7.3

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

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