" /> O monumento stoniano visto ao vivo | Festivalando
Foto: Per Lange/Roskilde Festival

O monumento stoniano visto ao vivo

Ir a um festival e ignorar um show dos Rolling Stones é como ir a Paris pela primeira vez e fazer a egípcia para a Torre Eiffel. Não dá; você simplesmente tem que ir para ver, sentir e tentar entender a grandiosidade da coisa por si próprio. Pode ser que você não ache lá grande coisa e que o cliché se sobressaia ao encantamento, mas é uma obrigação pelo peso histórico e simbólico.

Foi sob essa perspectiva que vi os Stones no Roskilde Festival, em show que encerrou a parte europeia da “14 on Fire”, turnê que deve passar pelo Brasil em janeiro do ano que vem. Todo mundo estava lá para ver os Stones (coitados dos mocinhos do Bastille, que foram escalados pra tocar no mesmo horário que o pai do Lucas Jagger em um outro palco). Os headliners supremos do festival foram responsáveis por esgotar em apenas um dia os ingressos separados para a noite de abertura dos shows no Orange Stange, o principal do Roskilde.

Ver Mick&Keith&Ron&Charlie surgindo no palco ao som de “Jumpin’ Jack Flash” é tão impactante quanto ver a Torre Eiffel surgindo na paisagem à medida que se avança pelo Quai Branly. Finalmente, sem intermediários, os seus olhos veem aquilo que até então só imagens mostravam. É tudo verdade mesmo. E assim como quando você finalmente encara a torre de frente, a grandiosidade fica ainda mais palpável quando a banda emenda diante de seus olhos (e ouvidos) uma sequência com “Let’s Spend the Night Together”, “It’s Only Rock ‘n’ Roll (But I Like It)”, “Tumbling Dice”, “She’s So Cold” e “Wild Horses”, ou quando Mick Taylor se junta à banda em “Midnight Rambler” e “Satisfaction”.

Detalhes tornam a vista ainda melhor: o blazer roxo de paetês que Mick veste enquanto desfila pela passarela contígua ao palco para que ele possa descarregar toda energia convertida em dança (ao fim de duas horas de show, ele ainda requebrava enquanto eu sentia uma dorzinha na lombar); a simpatia de Mick, que se dirigiu ao público diversas vezes em dinamarquês sem aparentar dificuldade com o idioma; o modo como Keith e Ron parecem ser dois moleques, no melhor sentido do termo, com seus tênis coloridos, se divertindo com suas guitarras; a teatralidade que é jogada sobre “Sympathy for the Devil”, único momento do show em que o telão deixa de exibir exclusivamente cenas do palco para mostrar imagens pré-produzidas que introduzem a entrada de Mick em figurino de plumas vermelhas esvoaçantes.

Outros detalhes vão na contramão do cartão postal. Keith é um dos caras mais legais do rock, mas a sequência em que ele assume os vocais enquanto Mick toma sua aguinha dá uma esfriada no show assim como aquela fila que você tem que pegar para acessar uma atração turística concorrida como a Torre Eiffel. A plateia dinamarquesa, de morna para fria, que resolveu se entusiasmar pra valer somente nos versos iniciais de “Satisfaction”, a última música do show, parece aquela turma chata de turistas que param no meio do caminho atravancando seu passeio.

A impressão final é que ficou faltando algo. Talvez um pouco mais de espontaneidade, prejudicada pela repetição de um repertório pouco variável nas últimas turnês; mais peso para preencher ao vivo o som reverberado para um público de cerca de cem mil pessoas (Jack White fez isso com maestria no show que fechou Roskilde); ou entusiasmo do público, que tem a responsabilidade, sim, de fazer o show junto com a banda.

Sim, ver os Stones ao vivo é necessário e valoroso, assim como ver com os seus próprios olhos um monumento como a Torre Eiffel. É estar cara a cara com a historia e com a grandiosidade, ainda que sem os retoques de foto de cartão postal que escondem qualquer defeito.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

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