Viajar [email protected], um guia prático e sentimental em 5 passos

Eu não sou a melhor pessoa para encorajar a outra a viajar sozinha. Ou sou? Não sou porque ficar sozinha sempre foi uma pré-condição que a vida me impôs – sou filha única, uma pessoa introvertida e meus pais sempre trabalharam fora. Fazer as coisas no modo forever alone sempre foi a coisa mais natural pra mim e não um desafio que eu tive que superar.

Mas eu sou a melhor pessoa pra encorajar a outra a viajar sozinha porque já fiz isso tanto, em lugares tão diferentes e em diferentes condições, que já passei por muitas das delícias e perrengues que uma experiência dessas pode proporcionar. A minha primeira viagem para o exterior foi sozinha, a segunda e a quarta também. Metade da quinta foi sozinha e a sexta totalmente sozinha novamente, fora os rolês solo aqui no Brasil mesmo.

Com as credenciais corretas ou não para falar sobre o tema, o fato é que eu vejo um monte de gente deixando a vida escorrer pelo ralo quando diz que não vai fazer algo porque não tem companhia. Em tese, a vida é sua e a vontade de fazer X ou ir a Y é sua. Se você só realiza essas vontades quando o outro quer, bem… Talvez você não esteja realmente vivendo a sua vida, e sim a vida que os outros permitem que você viva. Isso vale pra uma ida ao cinema ou pra uma viagem sozinha, seja aqui mesmo no Brasil, no exterior ou pra um festival.

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Sozinha e descabelada em Londres, na minha estreia solo em terras estrangeiras

Supere o medo de ficar [email protected] [email protected] com você [email protected]

O medo ou o incômodo de não ter uma companhia é, ao mesmo tempo, visto do avesso, o medo de ficar somente com a nossa companhia. E a gente tem que ser capaz de passar um tempo consigo mesma, apesar das nossas chatices, defeitos e manias. Se você não consegue se aturar, quem mais vai?

Como eu disse, a vida não me deu outra escolha senão aprender a lidar com a minha própria companhia. Sou filha única, uma pessoa naturalmente introspectiva e meus pais sempre trabalharam fora. Tenho anos de experiência na coisa.

Viajar sozinha é uma ótima maneira de aprimorar ou colocar em prática essa capacidade de estar só com você, afinal é só você rodeado de estranhos num lugar idem. É também quando você vai estar mais atenta a tudo que você faz e vê, aos lugares que você visita e as ruas por onde você passa. Seu foco e atenção nas experiências da viagem são muito mais consistentes, porque tudo o que você vive vai direto pra você, sem se dispersar em conversas ou interesses alheios.

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Sozinha e blasé em Bogotá antes do Estereo Picnic

Descubra que você é mais independente e auto-suficiente do que imagina

Pode ser horrível, sim, em alguns momentos fazer uma viagem sozinha. Não tem ninguém pra ajudar a lembrar o caminho de volta pro hotel nem para olhar suas malas no aeroporto – eu já precisei ir no banheiro carregando uma mala, uma mochila e uma bolsa de mão que juntas pesavam 40 kg, contra os meus 47 kg.

Mas é uma ótima forma de aprimorar seu senso de responsabilidade, ganhar novas habilidades e desenvolver a capacidade de resolver problemas, dos menores aos maiores. É um saco ter que a todo tempo pedir estranhos para fazerem fotos suas, então talvez seja melhor aprender a tirar autos-retratos decentes. Não falo de se entregar ao artifício fácil da selfie, e sim de tirar fotos sem câmera frontal e ainda assim pegar muito mais que o seu rosto. Pergunte-me como.

Pode ser um saco também perder o seu voo de Paris de volta para o Brasil, não encontrar nenhum hotel pra passar a noite e ter que voltar ao hotel onde você fez checkout e convencer o gerente a te deixar passar a noite no lobby, tomar café de graça no dia seguinte e tomar banho rapidinho enquanto o outro hóspede não chega. Aconteceu comigo, e eu preferiria que não tivesse acontecido, mas é ótimo ver que eu consegui achar uma solução rápida por conta própria.

montreux jazz festival

Sozinha em Vevey, nos intervalos do Montreux Jazz Festival

Não deposite nos seus amigos a responsabilidade pela realização das suas vontades

É maravilhoso ter por perto quem gosta das mesmas coisas que a gente e que quer estar ao nosso lado. Mas a gente não pode esperar que isso aconteça o tempo todo, porque mesmo que as pessoas queiram fazer as coisas juntas, talvez elas não possam. Ou em algum momento ou outro elas simplesmente não vão querer mesmo. E mesmo que você viaje [email protected], não quer dizer que você e sua companhia vão querer conhecer os mesmos lugares ou ver os mesmos shows no festival o tempo todo.

E quando elas não podem ou não querem, o que acontece? A sua vida para? E será que não é pressão demais, e até um pouquinho egocêntrico, esperar que os outros queiram fazer as mesmas coisas que você?

Eu posso contar com exatidão o que eu teria deixado de viver se tivesse esperado que os meus amigos tivessem o mesmo interesse ou disponibilidade que eu para fazer as mesmas viagens. Eu teria deixado de conhecer 11 países e teria perdido 9 festivais e um show do U2.

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Me enturmando com os locais em Buenos Aires 😛

Fique [email protected], mas não suma no mundo

Ok, você se convenceu de que não há razões para ter medo de viajar [email protected], mas não precisa se achar o Leonardo DiCaprio se gabando de ser o dono do mundo no Titanic. Independência e auto-suficiência não podem deixar a gente se esquecer que o mundo, apesar de lindo, pode ser um lugar às vezes perigoso e com riscos inesperados.

Mulheres sozinhas ainda são vistas como uma presa fácil em praticamente todo o mundo, ainda que em maior ou menor grau dependendo do lugar. A ameaça de terrorismo é um tipo de violência aleatória, que não foca em um gênero, etnia ou qualquer outro tipo de identidade específica. A gente também não programa a hora e o dia de passar mal ou ficar doente.

Permita que sua família, [email protected] e/ou [email protected] saibam exatamente onde você está. É importante que as pessoas que a gente ama saibam como entrar em contato com a gente em caso de urgência, mesmo de longe, e também que tenham um mínimo rastro seu, por onde você passou, em caso de haver imprevistos ou dificuldades de comunicação.

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Reinando absoluta e sozinha em Versailles

Seja [email protected], mas não seja displicente nem se isole

Quando eu viajo sozinha eu não falo para os meus pais simplesmente a cidade e o país para onde vou, o dia da ida e da volta. Deixo também o endereço do hotel e o número do quarto e do telefone, bem como os horários dos voos. Mando uma mensagem no fim do dia falando que estou bem, que fiz um passeio em X, que no dia seguinte quero visitar Y.

Deixe o mínimo espaço possível para o acaso agir. Eu não viajo sozinha (ou mesmo acompanhada) com dinheiro contado, nem sem liberar um cartão de crédito internacional, nem sem seguro viagem. Não ignoro recomendações de segurança locais. Carrego anotados os números para fazer ligações diretas a cobrar de acordo com o país (veja essa lista do Brasil Direto, serviço da Embratel) e endereço das representações diplomáticas do Brasil onde eu estiver.

A regra de não se isolar vale tanto pra quem você deixou em casa quanto pra quem você vai eventualmente encontrar no seu destino. Conheça pessoas diferentes, interaja. Algumas vão se transformar em (boas) lembranças de viagem, outras podem acabar fazendo parte da sua vida. Digo por experiência própria 😉

Se você ainda não se convenceu de que é ok viajar [email protected], assista o Vídeo Selfie como última tentativa de persuasão. Se você já se convenceu, assista do mesmo jeito, porque eu e Gra resumimos as ideias desse longo texto num papo bem solto 🙂

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

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