Guitar Days Festival Indie Rock Brasil 2016 BH Dia #2 © Flávio Charchar

Uma noite noventeira no meio dos dois mil e dez – Indie Rock Brasil por Fernando Motta

Ph:Jonathan Tadeu

A volta do festival Indie Rock Brasil foi um dos marcos do ano de 2016. Mas, antes disso, o festival já era um marco na vida de muita gente. Esse é o caso do Fernando Motta, jornalista cultural e músico de Belo Horizonte, prestes a lançar seu disco solo pelo coletivo Geração Perdida.

O guitarrista já caminhou ao lado do compositor Jonathan Tadeu e da banda Young Lights e se apresentou na edição do Indie deste ano. Ele aproveitou para contar para a gente como foi essa noite cheia de coisas boas – na música e nos sentimentos.

Segue, então, um belo relato sobre como foi o Indie Rock Brasil 2016, por Fernando Motta – com colaboração de Guilherme Machado e Silva e fotos de Flávio Charchar, com exclusividade para o Festivalando.

UMA NOITE NOVENTEIRA NO MEIO DOS DOIS MIL E DEZ

Na década de 90, pelo menos 3/4 das pessoas que foram ao Festival Guitar Days ★ Indie Rock Brasil 2016 ainda nem sabiam o que era rock alternativo. Indie, então, nem se fala. Assim como eu, a grande maioria do pessoal que esteve no evento deve ter menos de 30 anos. Na época em que as bandas Second Come (RJ) e Killing Chainsaw (SP) conquistavam os outsiders do ‘roque para roqueiros’, minha música preferida devia ser a da abertura de Carrossel. Mal sabia eu que “outside there (was) a box car waiting”.

BRASIL / MINAS GERAIS / BELO HORIZONTE / A AUTÊNTICA / Guitar Days Festival Indie Rock Brasil 2016 BH Dia #2 © Flávio Charchar

Na Belo Horizonte noventeira, os redutos pra se ouvir Pixies e Nirvana eram o Drosophyla, na Avenida dos Andradas e a Broadway, no Santa Tereza. Bandas autorais tocavam no Marrakesh, na Contorno, na Savassi e no Maxaluna, na mesma avenida, mas na Serra, casas que receberam Skank e Pato Fu. A Estação 767 e o Bar Nacional eram locais pra shows maiores. A Obra só foi aparecer em 1997. A Autêntica, local que sediou o Guitar Days, foi de 1998 até meados de 2010 um bar que oferecia um paredão de escalada para os aventureiros (ou para os bebuns aventureiros).

Queria chegar neste ponto para dizer que não havia tanto motivo para nostalgia, exceto pela música. A maioria do público não acompanhou de perto a cena independente dessa época e o local que sediou o Guitar Days também não fazia parte desse circuito. No entanto, a característica mais forte do festival foi justamente essa. Nostalgia é um negócio tão forte que é possível atribuí-la a uma coisa que nem mesmo se tem memória.

BRASIL / MINAS GERAIS / BELO HORIZONTE / A AUTÊNTICA / Guitar Days Festival Indie Rock Brasil 2016 BH Dia #2 © Flávio Charchar

Guitar Days Festival Indie Rock Brasil 2016 BH Dia #2 © Flávio Charchar

A ordem dos shows do segundo dia de festival foi: dos caçulas aos veteranos. O Lava Divers (Uberlândia), formado em 2014, e o Câmera (BH), de 2012, são novos, mas alguns de seus integrantes acompanharam in loco, nos fanzines ou nos primórdios da internet as outras bandas da noite. Parecia não haver nenhum ouvido desconfiado quando os primeiros riffs barulhentos do quarteto do Triângulo Mineiro tomaram a casa. Além das quatro músicas do EP homônimo lançado em 2014, os Divers mostraram que têm material para se firmar como um nome forte na cena. Pareciam estar em casa. Anfitriões dedicados demonstraram que assistiram aos ótimos clipes lançados pela banda e ajudaram a cantar Done, On a Flag Hill e Carte Blanche. Em breve confirmaremos todo o potencial dessa guitar band com o lançamento de inéditas pelo icônico selo Midsummer Madness. (P.S: Foram os primeiros a tocar e os últimos a ir embora. Ô povo animado desse Berrrrlândia)

Guitar Days Festival Indie Rock Brasil 2016 BH Dia #2 © Flávio Charchar

Guitar Days Festival Indie Rock Brasil 2016 BH Dia #2 © Flávio Charchar

Em seguida, o Câmera demonstrou mais uma vez que tem um dos shows mais redondos da cidade. O que não dá pra dizer é que alguém ficou surpreso, afinal, com pouco tempo de estrada a banda já mostrou sua competência pra todo Brasil e até pra fora do país. A banda filha do Valv preparou o terreno de forma espetacular para os outros belo-horizontinos da noite.

Chega a vez do Valv. Pra mim, foi o momento de nostalgia mais legítimo que senti durante toda a noite. Já vi vários shows desses caras, mas nunca os tinha visto tão bem inseridos em meio a outras bandas. Apesar da banda ter lançado seu primeiro EP, o impecável Ammonite, em 2001, o som está definitivamente mergulhado nos anos 90. Lembro quando descobri a banda, em meados de 2004, provavelmente por meio dos finados Orkut e Trama Virtual. Ver esse show no Guitar Days foi como se eu pudesse voltar no tempo e, aos 14 anos, sair da minha pequena Coromandel, no interior de Minas, e vir assistir a um show da banda que eu pensava ter sido formada por algum gringo com timbre de voz parecido com Doug Martsch, do Built to Spill e Mac McCaughan, do Superchunk. A vigente onda revival noventeira tem sido tão boa conosco, nostálgicos de primeira viagem, que material inédito da banda será lançado em breve.

Guitar Days Festival Indie Rock Brasil 2016 BH Dia #2 © Flávio Charchar

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E aí veio o momento de nostalgia mais legítimo para todo mundo que viveu no celeiro indie dos anos 90. Second Come, formado em 1989, subiu ao palco e desfilou seus hits e suas versões barulhentas, cheias de microfonia e com um leve spoken word no jeito de cantar. Justify My Love e 20th Century Boy ficam realmente maravilhosas no segundo gozo (ops!) dos niteroienses.

Guitar Days Festival Indie Rock Brasil 2016 BH Dia #2 © Flávio Charchar

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O Killing Chainsaw, também de 1989, fez um dos shows mais honestos que já vi na vida. Não tem um pingo de firula ali, é porrada do início ao fim. No palco inteiro, acho que só vi um pedal (e não era na guitarra e sim no baixo). É de ficar embasbacado. A banda de Piracipacaba retornou aos palcos após quase 20 anos exclusivamente para a turnê promovida pelo Guitar Days. Com certeza, é o principal pilar musical do documentário que está por vir.

Guitar Days Festival Indie Rock Brasil 2016 BH Dia #2 © Flávio Charchar

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Os shows acabam às 4h da manhã. Alguém solta um “vamos embora?”. Mas, aí a DJ responde e solta Breeders, Sonic Youth e Pavement. E lá estão os doidos do Lava Divers pulando. Depois disso, alguém ainda manda “partiu pro Rei do Pastel?”. E fomos. Até o corpo ficou nostálgico e resolveu relembrar o vigor dos primórdios da juventude.

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