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No Statement Festival, na Suécia, só é permitida a entrada de mulheres

Centenas de festivais já estão confirmados para a temporada do verão 2018 na Europa, mas, por enquanto, só um deles interessa de verdade. É o Statement Festival, que vai acontecer em junho do ano que vem na Suécia e só vai permitir a entrada de mulheres cis, trans e pessoas que se identificam como não-binárias. O recorte é válido para a audiência, a produção e as artistas do lineup.

Por trás da inciativa está a comediante sueca Emma Knyckare, que lançou a ideia espontaneamente no Twitter. Ela recebeu tantas manifestações de apoio que decidiu estruturar uma campanha de crowdfunding no Kickstarter para fazer o festival acontecer. Em um mês, a campanha arrecadou meio milhão de coroas suecas, o que assegurou a realização do festival para 10 mil pessoas.

Tecla SAP: “O que vocês acham de criar um festival onde apenas pessoas que não são homens são bem vindas e que vai acontecer até TODOS os homens terem aprendido como se comportar?”

O tweet de Emma veio logo após as ocorrências de 23 casos de abuso sexual e quatro estupros no Bråvalla Festival, o maior festival da Suécia, em junho deste ano. Mais que isso, veio da recorrência desses episódios violentos no Bråvalla. Em 2016, foram registrados 12 casos de abuso e cinco estupros.

Ao mesmo tempo em que o tweet de Emma foi o estopim para uma reação coletiva contra a violência sexual sofrida pelas mulheres, a organização do Bråvalla decidiu cancelar a próxima edição do festival, também em consequência dos abusos e estupros. Em uma curta declaração ao The Guardian, a organização do festival justificou: “Alguns homens aparentemente não sabem se comportar. É uma vergonha. Por isso decidimos cancelar o Bråvalla 2018”.

Antes de tudo, vamos entender o que é statement

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O festival não se chama Statement por um acaso. Em seu sentido original, statement quer dizer declaração. Em seu sentido figurado, statement é um tipo de recurso para chamar atenção. É um sentido que se originou do mundo da moda, especificamente.

Foi pegando emprestado um pouco desses dois significados que o festival encontrou seu nome de batismo. É uma declaração que diz: “chega, a gente não aguenta mais ver mulheres sofrendo violência sexual”. E é também um recurso para chamar atenção para o problema e assim o faz de uma maneira bastante drástica – excluindo os homens de todas as suas esferas de realização.

Não é uma regra, uma lei, um novo modelo de festival a ser copiado que está sendo criado aqui. É um ato de protesto, uma ação simbólica para expor as vísceras do problemas.

Mas eu sou homem e jamais estupraria uma mulher! Não é justo me excluírem!

Pois é, amigo. A Emma sabe disso, eu sei, nós todas sabemos, portanto, você não precisa explicar isso pra gente. Ela mesma já disse em várias entrevistas:

“Os homens não são todos estupradores, mas praticamente todos os estupros são praticados por homens. Queremos criar um espaço de liberdade, um festival legal onde as mulheres podem estar sem se sentirem preocupadas”

E porque então excluir todos os homens mesmo sabendo que nem todos vão nos violentar? Porque:

  • Há homens que duvidam de mulheres quando elas dizem que sofreram algum tipo de violência sexual
  • Há homens que querem definir o que é e o que não é violência contra mulher
  • Há homens que culpam as mulheres pela violência sofrida
  • Há homens que não consideram todo tipo de violência realmente uma violência. Ou pensam que é uma coisa menor, sem importância. Tem um exemplo bem recente disso. Tarantino afirmou que sabia dos casos de abuso cometidos pelo produtor de Hollywood Harvey Weinstein. Isso porque sua então namorada (!!!) Mira Sorvino se queixou dos abusos, mas ele preferiu calar-se porque achou que não era nada ~sério~
  • Há homens que apenas observam outros caras importunando, abusando de mulheres e não movem um fio de cabelo para coibir os abusadores

(dica: se você é homem e já agiu dessa forma alguma vez, dá tempo de mudar. Você pode começar a se esforçar tipo agora)

Pingos nos is

Quando todos os homens são excluídos, mesmo sabendo-se que nem todos são capazes de efetivamente violentar uma mulher, é porque está-se também excluindo todos os tipos de homens citados acima. Aqueles que fazem aumentar ainda mais o nosso medo caso sejamos vítima de violência. Pois, se não vão nos violentar, por outro lado vão nos questionar, dizer que estamos mentido, dizer que não há provas, dizer que não foi nada, dizer que a gente deveria ter tomado cuidado. Enfim, aqueles que vão tornar um episódio de violência sexual ainda mais traumático.

Em última análise, o festival está impedindo a entrada daqueles que se sentem ofendidos por terem sido excluídos de um único festival num universo de centenas de festivais, mas não se sentem ofendidos quando outros homens praticam crimes contra mulheres.

E quanto àqueles homens que não fazem nada do que foi citado acima?

É provável que esses já entenderam o seu papel diante das mulheres e não estão atacando o festival ou se sentindo ~excluídos~.

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Mas proibir os homens não resolve o problema!

Não resolve mesmo. Inclusive, a idealizadora do festival já sabe disso, e mais uma vez não é preciso explicar isso pra ela ou pra ninguém. O ponto não é esse. Na mesma entrevista citada anteriormente, Emma disse:

“Um festival não é a solução para o problema e sim uma reação ao problema. O objetivo com o festival é mostrar que não deveria haver eventos separatistas”

Parece contraditório o que ela disse, mas quando voltamos ao significado de statement as coisas ficam menos absurdas. A exclusão dos homens do Statement Festival quer expor de uma maneira bastante radical como chegamos a um ponto em que somente a mudança imediata de comportamento é possível.

Se quatro ondas de movimento feminista ao longo de mais de um século não foram suficientes para mudar as coisas; se punições legais e debates recentes nos meios de comunicação e nas redes sociais não foram o bastante para que homens mudem seu comportamento; talvez seja a hora de tomar medidas radicais que incomodem e obriguem a uma reflexão que outros métodos não são capazes de provocar.

Mas agora as feminazis vão invadir até os festivais?

Sim.

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O Statement Festival até o momento tomou a medida mais drástica de todas no que diz respeito às lutas das mulheres, mas há iniciativas em diferentes graus nos festivais por aí.

O Glastonbury, o maior e mais antigo festival do mundo, lançou em sua última edição um espaço exclusivo para mulheres se expressarem e debaterem suas ideias, por exemplo. O TUFFEST, um festival alternativo de Seattle, nos Estados Unidos, só inclui mulheres cis, trans, pessoas não-binárias e queers em sua programação e dá acesso preferencial a essas pessoas em todas as atividades da programação.

Quando não há uma ação previamente pensada pelo festival, há manifestações espontâneas. Para citar exemplos mais próximos e recentes: a crítica ao vivo e sem filtros que Titi fez ao Borgore durante o Lollapalooza e o discurso de Karol Conka no Rock in Rio.

É um caminho sem volta.

SPOILER: não é só nos festivais.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

2 comments

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  1. Renan 23 outubro, 2017 at 02:15 Responder

    Li sobre este festival numa matéria do Whiplash e o que li de comentário preconceituoso e egoísta não está no gibi. Infelizmente é uma atitude que precisa ser feita por conta daquilo que o mundo vive nos dias de hoje. É o famoso ditado de:” por causa de um, todos pagam”. A Suécia é um dos países com a maior taxa de mulheres estupradas no mundo. Precisa mudar e é uma atitude que parte deles a longo prazo, apesar de ainda ser um paliativo. Só uma curiosidade: em trabalhos dentro desse festival como segurança, pessoal que trabalha montando e desmontando os equipamentos de som e a galera que trabalha na área do bar, vão ser permitidas pessoas do sexo masculino?

    • Priscila Brito 23 outubro, 2017 at 10:28 Responder

      Bom saber que o Whiplash deu isso porque vou passar longe da sessão de comentários! hahaha Que terror que deve estar aquilo. Sobre a sua dúvida, pelo que eu entendi todas as áreas que estiverem no controle direto da organização vão ter só mulheres. Mas imagino que em outros casos não tem como o festival interferir. Por exemplo, alguma artista do lineup pode ter roadies homens ou um homem na banda. Imagino que nesse caso devem pensar numa estratégia que não vai prejudicar quem trabalha diretamente com esses homens, mas que também vai levar em conta a estratégia do festival.

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