mulheres no Brutal Assault.Gra e Pri, mulheres festivaleiras no Brutal Assault (República Tcheca)

Ser mulher em festival

Ser mulher em festival não é nada fácil: é  algo que já sei desde cedo. Quando ainda mocinha, meu sonho era ir no show do Sepultura e do Iron Maiden. Os shows do Iron aconteceram em São Paulo e eu morava em Belo Horizonte, sem grana e com um pai muito rígido. Logo, sonho impossível de se realizar na época. Porém, o show do Sepultura rolou e foi em um dos primeiros festivais que fui na minha vida: o Pop Rock Brasil, que acontecia anualmente no Mineirão, em BH. Mas não foi nada fácil convencer os meus pais de que eu, menina, poderia ir a um festival sozinha. Os primeiros argumentos deles foram, claro, “isso não é coisa que moça séria faz”. Depois de eu contra-argumentar, ainda na precariedade da adolescência, sobre o que é ser “moça séria”, restou aos meus pais apelarem para a questão da segurança. Cresci escutando que não é seguro uma moça andar por shows e festivais de música sozinha.

Eu achava absurdo tal medo e precaução dos pais, mas tive que ir em muitos shows para perceber que em partes pode ser verdade. A sorte é que sempre fui grande e tenho cara de brava, assim como sei ser brava. Daí, poucos engraçadinhos arriscaram. Também cresci ouvindo vários avisos, conselhos e até mesmo proibições quanto às roupas: ” não use essa saia tão curta, não vá com essa blusinha decotada… é perigoso”. É um tanto quanto revoltante crescer vendo meninos tirando suas camisas suadas em show de metal, se libertando dos tecidos pretos pesados e abafados e nós, meninas, para não sermos atacadas, “não darmos nosso direito”, temos que permanecer lacradas nas nossas camisas que, de acordo com a vontade dos nossos pais e com a falta de noção dos ~ pobres coitados~ marmanjos que não conseguem ver um decote sem querer atacá-lo, deveriam ser sempre XXXL, versão burca.

Algo está muito errado na sociedade e tem que mudar! Mães e pais devem educar seus filhos para um mundo que oprima menos e, principalmente, que oprima menos as mulheres. No nosso podcast de hoje contamos nossas diferentes experiências em situações que apelaram para a famosa igualdade de gênero, bem como para a forma como os homens tratam as mulheres.

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

3 comments

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  1. Gabriela B 5 setembro, 2016 at 12:24 Responder

    Olá Gracielle! Que bom que sempre ocorreu tudo bem com você em festivais. Quando tinha 16 anos quis demais ir ao Spirit Of London (ainda tinha a ilusão de que as pessoas iam para esse tipo de lugar para dançar, fazer amigos e… só), pois bem, passei muita raiva. Eram homens apalpando mulheres enquanto estas andavam, homem drogado agarrando meninas quase a força, um cara me agarrou pela blusa e tive que unhá-lo para me desvincilhar… Enfim… foi uma experiência horrorosa e consideravelmente traumatizante. Nunca mais voltei para esse tipo de lugar/ festival. Mas é bom saber que ainda há mulheres que conseguem ir sem que nada de errado aconteça com elas (como li no seu texto). Abraço Graci!

    • Gracielle Fonseca 5 setembro, 2016 at 14:31 Responder

      Nossa, Gabriela! A gente entende e fica muito triste que este tipo de experiência tenha ocorrido com você. Comigo nada aconteceu, mas não estive ainda em um festival como este que você foi, por exemplo. Eu acredito que dependendo do estilo de música, alguns festivais ganham uma atmosfera diferente. Assédio sempre tem demais, mas nunca me agarraram. Acho que por conta do meu tamanho, os caras ficam meio temerosos.

      A Pri fez esse post aqui falando de algumas iniciativas de empoderamento de mulheres dentro dos festivais, justamente para proteger as mulheres deste tipo de experiência ruim.

      Espero que você se sinta segura para voltar a um festival um dia. Talvez em alguns desses, com iniciativa de empoderamento.

      Obrigada pelo seu comentário!

      Beijão, querida! <3

      • Gabriela B 6 setembro, 2016 at 12:23 Responder

        Olá Gracie! Irei ler o post agora mesmo! Obrigada pela dica. E sim… agora já sou adulta, tenho 24 anos, mas, infelizmente, algumas experiencias ruins realmente marcam a gente, né… Até hoje eu sou bem desconfiada quanto a lugares que fazem festa/baladas/festivais e afins. Não voltei a festivais, como te contei. Mas estou com uma coceirinha para ir a um show ano que vem! E irei! Com precauções (muitas), mas irei! Ser mulher em certos lugares é uma luta constante, mas não vou desanimar não! Obrigada por responder! E lá vou eu ler o outro post. Mil beijos!!! 🙂

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