recap rock in rio 2017Rock in Rio/Divulgação

Recap Rock in Rio 2017 #2 – Dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo

Acabou. É com um suspiro esgotado, nostálgico AND aliviado que dá pra dizer que o Rock in Rio acabou. Porque, olha, sobreviver a esse festival é uma arte desafiadora inclusive pra gente que ensina todas as manhas sobre ele. Sim, do lado de cá é ainda mais intenso. Além de viver o “nosso” Rock in Rio, estamos aqui no SAC extra-oficial pra ajudar vocês também. Pra nós aqui no Festivalando ele dura um ano inteiro praticamente.

O que resta agora são momentos na cabeça (e que momentos, Braseeeel). Enquanto recarregamos a bateria pra voltar à vida normal, vamos a eles (alguns deles).

Dois corpos (e headliners) não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo

A sensação de poder circular melhor pelo Rock in Rio graças à mudança para um espaço maior deixu de existir na reta final do festival. O motivo: no sábado, 23, dois grandes corpos se colidiram: The Who e Guns n’ Roses. Com toda sua força gravitacional, eles atraíram milhares e milhares de partículas, causando colisões constantes e múltiplas.

O festival parecia ter muito mais que os anunciados 100 mil fãs (ou será que nos outros dias é que o número estava abaixo do anunciado oficialmente?). Resultado: andar pelo Rock in Rio no sábado foi quase impraticável. Só mesmo em ritmo de procissão. As filas dos bares e banheiros, até então toleráveis em outros dias, viraram congestionamentos.

As bandas, que não tinham responsabilidade nenhuma sobre as consequências da escalação que desafiou as leis da física, fizeram aquilo que se esperava delas. Foram dois shows memoráveis.

Aula

O The Who fez uma apresentação inédita (53 anos de espera) e única (é provável que a banda jamais volte) para o público que estava ali. São raras as vezes em que esses dois adjetivos se aplicam a um show. Isso já entrega todo seu valor. Foi uma aula de história do rock com clássicos em blocos ligeiramente cronológicos. Os singles explosivos do início da carreira – “I Can’t Explain”, “Substitute”, “My Generation”; as pérolas das óperas rock “Tommy” e “Quadrophenia”. Os dois professores, Daltrey e Townshend, também ensinaram como se entregar ao vivo.

Sem limites

Com parte de sua formação clássica, o Guns n’ Roses lembrou a banda que era naquela transição dos anos 1980 para os 1990: sem limites e com excessos. Mas se no passado a falta de limites e os excessos eram descarregados em arruaças típicas de rock star com síndrome de deus, neste show do Rock in Rio essas forças agiram nos limites da música somente.

Foi um show extenso (três horas e meia, 27 músicas), com vários momentos armados para fazer brilhar o virtuosismo de Slash, homenagens (“The Seeker”, do The Who, “Black Hole Sun”, do Soundgarden) e pouca brecha para reclamar que ficou faltando este ou aquele hit. Às favas os problemas com a voz de Axl. A banda se dispõe a gastar muito tempo no palco sem a obrigação de fazê-lo.

Ta-ke me ho-me yeah. #sqn

Muita gente usou da estratégia de ficar na Cidade do Rock um tempo depois do fim do último show para evitar a multidão na saída. Outros simplesmente ficaram no festival ad eternum porque sim. No Twitter, seguidores comentaram pra gente sobre a delícia que é ficar lá dentro até tudo fechar. No Instagram vimos gente postando fotos tiradas às sete da manhã de domingo pós-show do Guns na Cidade do Rock!

É a sua indiferença que me mata

A piada no Twitter antes do Bon Jovi subir ao palco era o clamor pra que o galã tocasse “Evidências”. Isso obviamente não ocorreu, até porque há outro clássico sertanejo que resume melhor o que viria na sequência: “Indiferença” (Zezé di Camargo e Luciano). Mesmo com toda a torcida (desta vez não irônica) para “Always”, uma alternativa dentro do setlist oficial, Jon Bon Jovi ignorou o pedido dos fãs. Também jogou pra escanteio hits previstos no set que deixariam o público satisfeito (“These Days”, “I’ll Be There For You”).

Quem fez tudo e um pouco mais do que os fãs gostam foi Jared Leto. Ele preencheu o set do 30 Seconds to Mars limitado a uma dezena de músicas com gracinhas para adular o público. Teve passeio na tirolesa e colheradas de açaí (um loop temporal do show da banda em 2011). Teve também uma farra de fãs no palco no fim do show.

Aceita que dói menos

As pautas de gênero estiveram presentes direta e indiretamente no fim de semana do pop com os shows de Johnny Hooker, Liniker, Almério e Pabllo Vittar. No fim de semana do rock elas permaneceram. Desta vez, com as presenças de Titica, cantora trans Angolana convidada do Baiana System, e Karol Conka, convidada dos colombianos do Bomba Estereo. Detalhe à parte: Karol estava mais para atração principal do show.

Após quatro músicas e discursos contra o machismo, a homofobia e a favor do prazer feminino, a cantora finalizou sua participação especial, deixou o palco e assim também fez boa parte do público. A maioria estava lá apenas para vê-la. Justíssimo com Karol, uma pena para o Bomba Estereo. O grupo faz uma cumbia eletrônica deliciosa, mas foi prejudicado pela escalação do festival por ter caído num dia roqueiro demais. Teriam se dado melhor no primeiro fim de semana.

O começo do fim

Três shows podem entrar para a história neste Rock in Rio: os já citados Guns e Who e o Aerosmith. É possível que esta tenha sido a última vez que o Brasil viu estas bandas ao vivo. A experiência já provou que não se pode levar muito a sério quando gigantes do rock dizem que estão em uma turnê de despedida. Muitos acabam voltando. Porém não se deve tirar por completo o crédito do que eles dizem.

Se assim o for, só vai dificultar a tarefa do Rock in Rio de encontrar os costumeiros headliners grandiosos para encerrar suas noites. Eles estão cada vez mais escassos, o que reduz as opções e aumenta as possibilidades de repetições (que já se repetiram o suficiente até aqui).

Mas isso é problema pra começar a pensar em 2019. O Red Hot acabou de fechar o show com “Give It Away”, o que indica que é hora de encerrar o assunto Rock in Rio 2017.

Veja o que achamos do Rock in Rio 2017

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora também coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Além de uma das mães do Festivalando, sou colaboradora da Mixmag e do Brasil Post e autora do Porque eu gosto de música. Também ajudei Paul McCartney a falar uai em pleno Mineirão.

7 comments

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  1. Ronival Rodrigues Pereira 25 setembro, 2017 at 06:49 Responder

    Grande post. Só gostaria de fazer uma ressalva a questão da volta.
    Todos os dias milhares de fãs e usuários do programa “Rock In Rio”, saiam do festival com a sensação de faltou algo. E para completar, a volta prá casa foi realmente desanimadora. Filas quilometricas, falta de organização, falta de transporte adequado. Todos pareciam latas de sardinhas podres.

    Precisam melhorar e muito

    Ronival

    • Priscila Brito 26 setembro, 2017 at 09:57 Responder

      Pois é, Ronaldo. O ideal mesmo, pra que a volta pra casa fosse 100% tranquila, era que o metrô chegasse até o local do evento, pois esse meio de transporte é imbatível quando há escoamentos em massa como no RiR, mas aí já é uma falha da cidade em si (como falham todas as grandes cidades brasileiras nesse quesito). A organização usou o que tinha à disposição, mas realmente faltam alguns ajustes, principalmente para aliviar os gargalos nos portões de saída e evitar aquela sensação de empurra empurra e “walking dead”. Vamos ver o que farão em 2019.

  2. Renan 25 setembro, 2017 at 18:08 Responder

    Que show fraco esse do 30 Seconds to Mars. Estava na expectativa de um bom show, mas o Jared foi mais um entertainer que cantor. Dos co-headliners, este foi um dos piores. E ainda teve gente que pegou pesado com o Def Leppard. Pelo menos os mais velhos continuam dando conta do recado. É só olhar The Who, Def Leppard, Tears for Fears e Pet Shop Boys.

    • Priscila Brito 25 setembro, 2017 at 20:25 Responder

      Eu achei estranho quando vi o set do 30 Seconds to Mars no Twitter e tinha só dez músicas. A impressão foi de que ele queria mais mesmo era fazer um ato para os fãs do que um show em si, tanto que foi firula atrás de firula. Os fãs já devem estar acostumados com esse padrão de show rsrs

  3. Renan 25 setembro, 2017 at 23:31 Responder

    Até esqueci de te falar: vi você e a Gra perto dos bebedouros, no dia 21, em direção ao início da Cidade do Rock. Eu tava numa fila grande pra pegar água e novamente bateu aquela vergonha de falar com vocês. Não vai ser dessa vez que vou trocar uma ideia com vocês.

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