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Punk tem medo de chuva? – Ou quando a boa intenção é um erro

Eu fui para Berlim para encarar dois festivais: o Greenville Festival e o Resist to Exist. Antes mesmo que eu chegasse à capital alemã, recebi um e-mail da organização do primeiro evento informando que ele havia sido cancelado. Senti frustração, sim, por perder a oportunidade de ver Snoop Dogg e Tyler the Creator, mas também um alívio por ter ainda mais um festival na manga. Até que a frustração cruzou meu caminho outra vez na Deutschland. Já no terceiro e último dia de Resist to Exist o excesso de zelo da organização colocou um dia inteiro de festival por água abaixo (e olha que nem foi tanta água assim) e impôs uma questão: decisão bem intencionada que mela um festival conta como erro?

Explico: antes de sair para pegar o trem até o distrito de Marzahn, onde acontecia o festival dedicado ao punk, hard core e ska, fui checar o Facebook pra falar “cazamiga” quando me deparei com um comunicado da organização do festival informando sobre o cancelamento integral da programação do último dia, no domingo (4/8). O motivo: a previsão do tempo alertava para a possibilidade de tempestade no fim de tarde do verão berlinense. Ma che, bello??? Ma Che???

Ok, juntar quase três mil pessoas em um campo aberto com cabos e plugues é de fato um risco caso caia uma tempestade, mas era necessário mesmo se precaver de maneira tão radical? Não, acho que não. Uma tempestade não desarma sobre a sua cabeça de um instante para o outro, ela se anuncia: o tempo fecha, o vento vem, as primeiras gotas caem. Enquanto isso, você se prepara para se proteger. E foi exatamente o que aconteceu no próprio festival no dia anterior. A previsão também era de chuva forte no entardecer, mas a programação correu normalmente.

Quando a chuva apareceu e o tempo fechou pra valer, com direito a alguns raios caindo a alguns quilômetros de distância de Marzahn, a organização deu orientações de segurança para o público e interrompeu os shows parcialmente até que houvesse condições seguras de seguir com as apresentações, o que ocorreu em aproximadamente meia hora.

Se a produção tivesse evitado o excesso de preocupação tipicamente materna e feito no domingo o mesmo que foi feito no sábado, o festival teria ocorrido inalteradamente. Por quê?, você me pergunta. Porque a previsão do tempo não é o goleirão Neuer e falha. A tempestade prevista foi, na realidade, apenas um chuvisco que sequer desmancharia um moicano, e se encerrou com um arco-íris fofinho e tão colorido quanto os cabelos do público do festival. E só foi cair quando o relógio marcava 18h. Os shows começariam às 13h e terminariam às 20h. Ou seja, pelo menos cinco horas de música jogadas no ralo. Mesmo se São Pedro tivesse a fim de castigar os punks e acabar com a farra barulhenta e cervejeira, daria para ter colocado em prática bem mais que a metade da programação prevista.

A previsão de chuva em Berlim virou esse arco-íris

A previsão de chuva em Berlim virou esse arco-íris

Como consolação, a organização fez um micro-festival vapt vupt em um galpão na área central de Berlim com três das 11 bandas que tocariam no domingo (um pepino de última hora com minha reserva em Praga, destino do dia seguinte, me impediu de ir). Prova de que o princípio do Do it Yourself, que naturalmente guia o festival por sua natureza punk, pode ter dois lados. Tanto um malabarismo ágil (e admirável) no desvio de burocracias para armar um micro-festival em questão de horas, quanto uma liberdade tão grande que arbitra até o desnecessário, inclusive o medo de chuva.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora também coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Além de uma das mães do Festivalando, sou colaboradora da Mixmag e do Brasil Post e autora do Porque eu gosto de música. Também ajudei Paul McCartney a falar uai em pleno Mineirão.

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