Aalborg taffel og bord official/visit Aalborg website

Programação de natal (para o fígado e estômago) na Dinamarca

Desde o fim de outubro percebo que as pessoas aqui na Dinamarca realmente curtem e anseiam pelo natal, que segundo eles é a festa mais legal do ano depois do “verão” hahaha. Os preparativos para essa grande celebração começam cedo. Mas, antes de armar toda sorte de baranguice que pisca e enfeites bizarros, existe um marco etílico aqui chamado J-Dag, J-Day ou dia J. Explico: natal em dinamarquês é “Jul” (lê-se iul). Daí o dia J seria o dia do começo das comemorações natalinas.

Não serei a primeira nem a última a dizer que esses dinamarqueses são amigos do litrão, bebem mais que motor de carro potente. Então, o dia J é nada mais nada menos do que a largada para as beberreiras de fim de ano com o lançamento da cerveja de natal Tuborg Julebryg, feita pela Carlsberg, maior cervejaria do país. Essa é uma tradição recente, entretanto. Apesar de a cerveja ter sido lançada em 1981, foi a partir de 1990 que eles instituíram o J-Dag como um dia de festança em todo o país. Funcionários da Carlsberg vão a diversos bares e distribuem as Jule Tuborg gratuitamente para todo mundo. Como consequência, esse também é o dia que você poderá ver a maior concentração de dinamarqueses muito bêbados pelas ruas – sim, é um dia para vê-los muito bêbados publicamente, uma vez que no resto das comemorações, na privacidade, você não irá vê-los de forma muito diferente,hehehe.

carlsberg

O J-Dag desse ano foi no dia 7 de novembro. Ele acontece sempre na primeira sexta-feira de novembro e a partir daí o “espírito de natal” fica soltinho, soltinho, assim como a galera possuída por esse encosto. Pude acompanhar essa festa de perto nas ruas de Aalborg. Eu estava por lá por conta do Aalborg Metal Festival e depois do segundo dia de festival, fiquei surpresa por encontrar mais pessoas bêbadas na rua do que dentro do próprio festival. Em Aalborg o pessoal se diverte com a cerveja de natal nas imediações da Jumfru Ane Gade, rua que concentra a maior parte dos bares e restaurantes mais legais da cidade. A Tuborg de natal é a quarta cerveja mais vendida no país. Ela é gostosa, mas ainda prefiro as versões Classic e Guld da marca.

jumfru

As aventuras etílicas não param por aí. Quando cheguei de viagem, logo fui a mais um evento natalino ( quem te viu quem te vê, Gracielle Fonseca!): o dia da inauguração da árvore de natal da comuna de Lyngby, uma pequena cidade a poucos minutos de Copenhague. Nesse dia me deparei com o glögg. Até pensei que fosse algo tipo o nosso quentão quando vi de longe. Mas é totalmente diferente. Trata-se de vinho quente diluído com açúcar, canela, algumas outras especiarias, servido com passas e amêndoas. Não curti, porque é muito doce e tem passas, odeio passas! Essa é uma bebida tradicional em toda a Europa na época do inverno. Alguns apontam que a origem dela seja romana. Mas é item imprescindível para qualquer evento natalino na Dinamarca.

glogg

Como já disse, os danish amam entornar, curtem uma manguaça. Certamente, o número de itens alcoólicos da cesta básica de natal é infinitamente maior do que os que relato aqui. A última e talvez uma das mais especiais de que dou notícias para vocês é a snaps, um destilado tipicamente dinamarquês, feito a partir de batata para celebrar com os amigos o natal. Essa é a bebida talvez mais simbólica dessa festa, e talvez a pior. imagina, pinga de batata num pode ser coisa boa né gente? Pois é, essa desce com dificuldade. Sabe vodka ruim? Balalaika para baixo? É, eles que me perdoem, mas a tal de Snaps é assim! A vantagem é que, com essa super danish booze você fica muito lóki, em segundos… e aí o espírito de natal entra com tudo mesmo e não te larga mais…

1296114-snapstop

bt.dk

Para combater o revertério que esse tanto de bebida vai causar, nada mais justo do que altas doses de glicose na sua veia, não é mesmo? Obviamente, a ceia natalina dinamarquesa tem muitos outros itens salgados importantes. O pato e o rullepølse (um pedaço grande de carne de porco enrolado em toucinho inteiro e preparado com ervas), são as estrelas principais dessa ocasião. Mas, os itens doces impressionam pelo grande número e variedade. Também foram os que pude provar, desde que voltei de viagem de Aalborg e vejo a invasão dos diferentes docinhos natalinos “jule, jule!”no supermercado. Na verdade, tenho percebido que, assim como existe o “raio gurmetizador” de alimentos, aqui na Dinamarca deve existir o “raio natalizador”, pois coisas que eu já tinha visto sem quaisquer rótulos, de repente viraram “sorvete especial de natal”, “marzipan especial de natal”, ” sopa especial de natal” e por aí vai. Por isso, me concentrei nos mais tradicionais para contar para vocês.

havregrynskugler-færdige1

Bom, a primeira guloseima natalina típica que comi foi o havregrynskugler ou bolinho de aveia com chocolate. Fui enganada pela aparência dele. Achei que era um brigadeiro com coco. Talvez ele não seja de todo ruim, mas a decepção de não encontrar a cremosidade e sabor único do brigadeiro me fez ficar meio chateada. de pirraça, não comi mais e falei que nada mais natalino seria comprado por mim. A promessa durou pouco, até surgir também uma enorme variedade de biscoitos dinamarqueses. Existem muitos, com várias formas de fazer e tradições. Uma das minhas amigas dinamarquesas me contou que, você só era considerada uma boa dona de casa se tivesse no mínimo 20 tipos de bolachas para receber seus convidados em casa.

biscoitos

Outra história que me contaram também é que, a quantidade de cada tipo também importa muito. Não pode ser pouco não. Antigamente as famílias demonstravam riqueza na época de natal fazendo latas e latas de biscoito, às vezes um mês antes da comemoração. Era necessário mostrar para os vizinhos que a larga produção desse alimento. Segundo essa minha amiga, infelizmente, apesar das enormes quantidades as crianças eram proibidas de comer os biscoitos até o dia do natal, quando os mesmos já não estavam mais tão saborosos. Especialmente esse aqui, o klejner.

klejner esp

Fui à casa dela e nesse dia fizemos os klejner. Muito simples, o gosto lembra um bolinho de chuva. A massa requer um cortador especial, que provavelmente somente os dinamarqueses, eu e você agora conhecemos por causa da foto. Depois de feito o triangulo, é preciso virar uma das pontas do Klejner dentro do furo central e virar. Aí sim pode fritar. Essa palavra, klejner, tem origem alemã, e desgina algo bem pequeno. Esse é um biscoitinho que eu recomendo. Muito saboroso. Mas apenas se feito em casa. O que é vendido em supermercado não é tão legal. Outros biscoitos vendidos no supermercado realmente não são tão prazerosos ao paladar, e confirmam uma certa fama que os biscoitos dinamarqueses têm por aí…

Outro item natalino que pude provar foi o æbleskiver, um bolinho de maçã coberto com açúcar de confeiteiro que lembra muito um bolinho de chuva também, porém, assado. Gostosinho também.

danish æbleskiver

Para finalizar as guloseimas típicas do natal desses queridos vikings, aqui está um prato muito gostoso, que nunca pode faltar no natal e envolve uma tradição divertidíssima: o Risalamandel. Basicamente, arroz doce com amêndoas. Mais uma vez, comprado no supermercado é horrível, mas feito em casa, ele até que é bem saboroso ( mas ainda prefiro o nosso arroz doce com creme de leite e leite condensado!)… o Risalamandel é servido gelado e geralmente com calda de amora ou morango, bem azedinha. As amêndoas presentes nesse arroz doce dinamarquês são torradas e cortadas. Mas, a brincadeira que envolve essa refeição no natal é que coloca-se uma amêndoa inteira, escondida nesse creme de arroz e desafia-se toda a família a achar essa amêndoa. Quem acha geralmente tem direito a um prêmio, um presente especial. A maldade, contudo, está no fato de que geralmente a pessoa que acha essa amêndoa a esconde até o final, só para ver todo o restante da família quase explodindo de tanto comer, se matando para achar a tal amêndoa premiada. Não é engraçado?

 

cutecarbs.dk

cutecarbs.dk

No geral eu curti as comidinhas natalinas dinamarquesas. Mas ainda tenho o pressentimento de que vou sentir falta do panetone querido, e do peru de natal =( . Mas tudo faz parte da experiência cultural, a gente topa. Então, skål e velbekomme (saúde e bom apetite em dinamarquês, respectivamente) .

Compartilhe este post

Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

Deixe uma resposta

Close