the vintage caravanThe Vintage Caravan/ Divulgação

Por trás das ‘letras de bula’ nos lineups dos festivais de rock e metal: The Vintage Caravan

Pode confessar aqui, ao pé do meu ouvido: seus olhos brilham mesmo é com as letras grandes e luminescentes dos headliners dos cartazes de festival. É ou não é? Sem hipocrisia, todos nós estamos sujeitos a isso. Afinal, a gente tem essa tendência de dar valor ao espetáculo que salta aos nossos olhos.

Porém, quando ficamos encanados nisso, com muita frequência nos privamos de espetáculos ‘de carne e osso’, que não necessariamente estavam ali brigando pela nossa atenção. Esse é o caso de algumas atrações escritas com ‘letras de bula’ nos lineups de festival.

Nesta semana, vimos mais um show muito foda de uma banda que costuma (ou costumava) ser grafada lá em baixo, quase no subterrâneo dos headliners. Por isso, resolvemos pegar os islandeses do grupo de rock The Vintage Caravan de bode expiatório. Um exemplo para abrir seus olhos para as letras miúdas dos cartazes dos festivais.

Da ‘letra de bula’ ao posto de headliner: a ascensão da The Vintage Caravan no Abraxas Fest

Lá em 2015, quando eu fui para a minha segunda edição do Roskilde, dei uma olhada no meu aplicativo do festival para planejar minha peregrinação aos palcos. Nesse app, você coloca um coraçãozinho nos nomes das bandas que você quer ver. E aí, ele monta sua grade para o festival, avisando inclusive o horário dos concertos. The Vintage Caravan estava lá, em letras minúsculas no cartaz. Confesso que não dei coraçãozinho para eles no app. Entretanto, o acaso me fez parar na tenda em que eles tocavam. Infelizmente, já tinha rolado mais da metade do show.

roskilde festival 2015

A banda de rock islandesa era um nome pequeno na imensidão de um dos maiores festivais da Europa, o Roskilde. Mas ela não estava somente lá. The Vintage Caravan fez a verdadeira ‘rapa’ dos festivais de rock e metal de 2014 para cá. O nome da banda estava entre as miudezas dos cartazes do Roadburn (NE) Wacken Open Air(DE), Rock in Vienna (AT), Roskilde (DK) e mais um monte. Essa presença persistente em todos esses lineups, mesmo que entre as miudezas, quer dizer algo, não é mesmo?

Mas foi aqui, em terras tupiniquins, que os islandeses viraram headliners. A produtora Abraxas  e a Rock Brigade produções acertaram a mão ao trazer a banda para o itinerante Abraxas Fest, que percorre capitais brasileiras como Porto Alegre, Brasília, Goiânia, São Paulo, Florianópolis e Rio de Janeiro desde o final de setembro até outubro de 2016. E foi diante desse pulo do gato – de ‘bula’ pra headliner – que a gente se jogou [literalmente] no show dos caras que rolou em Belo Horizonte, pegando embalo na turnê da banda, no dia 02 de outubro de 2016.

 The Vintage Caravan e a gana por diversão – uma micro resenha

the vintage caravan

The Vintage Caravan no Stonehenge Rock Bar, abraxas fest 2016. Ph: Gracielle Fonseca

O show de Belo Horizonte rolou no Stonehenge Rock bar e foi, certamente, um dos mais marcantes que passaram pelo minúsculo palco do estabelecimento. Palco que ficou ainda menor para a apresentação esfuziante do power trio islandês. Óskar (vocais e guitarra), Alexander (baixo) e Ágústsson (bateria) tocaram com tanta empolgação que quase vazaram lá de cima, se jogando na plateia. Dava para ver que toda essa vontade vem, sobretudo, da forma como lidam com a própria música: uma diversão que traz como consequência todo o resto.

Subiram nas caixas, provocaram o contato com a plateia, tocavam seus instrumentos como roqueiros convulsivos com o êxtase daquela energia impossível de se ignorar. Para quem tem minha idade, talvez o videoclipe de uma música do Silverchair chamado“freak”, que rolava sempre na MTV defina essa energia sobre qual me refiro (Atenção: Não estou comparando as sonoridades, somente a performance corporal e talz).

Tocando música com vontade

Além de suor, a banda exalava juventude e disposição. O título da primeira música do setlist denunciava o estado de espírito dos garotos islandeses no palco – ‘Craving’, mostrou que eles tocavam com gana e garra de quem sabe aonde quer chegar. A música meteu o pé na porta para que outras canções tão potentes quanto tomassem os ouvidos e corpos dos presentes. Na sequência, sem dar trégua: Babylon, Shaken Beliefs, Let me Be, Innerverse, Cocaine Sally, Marswatt, Carouse, Last Day of Light, Crazy Horses, Expand your Mind e Midnight Meditation.

É preciso dizer que a plateia fez os moshs insanos, solfejou quando não podia cantar, cantou enquanto podia e repetiu ‘vintage, vintage, vintage’ sem precisar de qualquer comando. Os próprios integrantes da banda pareciam olhar um para o outro se perguntando “cara, isso é verdade mesmo?”. Alexander perguntava para a plateia “Caramba, o que é isso que tá rolando? Que insano!”. Óskar não cansava de repetir que esse teria sido o melhor show da turnê sul americana, até então. Um belo show de Rock ‘n’ roll como eu não via há tempos.

No fim, almas lavadas e mãos suadas, que sustentaram o stage diving do baterista Ágústsson. Insano!E para coroar toda a beleza daquela apresentação, a plateia não parava de pedir mais músicas, sem se conformar que aquele show tinha acabado. No banheiro, uma mulher que agitou loucamente em frente ao palco falava: eu ficaria ali por mais 36 horas direto pulando…

 

Bate papo com The Vintage Caravan sobre os festivais de música

Contei isso tudo para vocês para que vejam o quanto ler a bula pode fazer a diferença. Escolher o show de uma banda inédita para você em um festival pode ser igual jogar na loteria. Mas quem não arrisca…

Não só nos arriscamos a ver um show inteiro dos caras, como também batemos aquele papo maroto com eles sobre festivais. Claro que não vamos deixar em off. Você vem para essa conversa com a gente:

F: Tem algum festival em que vocês ainda não tocaram mas, gostariam de fazê-lo?

Óskar: Hellfest!Sweden Rock, especialmente. Pinkpop na Holanda.

Alexander: Øya festival, um dos festivais mais populares na Noruega, atualmente.

Ágústsson: E também muito ambicioso, mas:Rock in Rio!

F: Que massa! Vou torcer para isso. Adoraria vê-los lá!

F: Quais foram os hightlights entre os festivais europeus em que vocês estiveram?

Ágústsson: Sonic Blast em Portugal foi fantástico! Tivemos a oportunidade de tocar com Pentagram e outras bandas locais muito interessantes. Era aniversário do Óskar e a gente se divertiu muito!

Óskar: Sim, havia duas mil pessoas cantando parbéns para mim! E depois, 10 mil no Wacken!Sem dúvidas, o Wacken foi muito especial. Para mim foi o highlight deste ano. O Roskilde também, em 2015. E Roadburn em 2014 também foi demais!

Senta que lá vem história:

F: Me contem uma história engraçada sobre essa temporada de festivais de vocês.

Alexander: Eu posso te contar uma história engraçada sobre um dia em que a gente “foi jogado” em um clube de strippers…

Óskar: Sim, você pode contar para ela isso!

[Risos]

Alexander: Sabe, a gente era muito jovem. Continuamos muito jovens. Eu nunca tinha ido a um clube de strip tease. Nenhum de nós, na verdade. E aí a gente foi para lá depois do festival e encontramos alguns fãs que nos reconheceram do show que havíamos tocado. Então isso ficou muito estranho.

[Risos]

Óskar: E o mais engraçado foi que dois anos depois encontramos mais fãs e eles nos disseram “hey! então você estava num strip club?!” Eu pensei: caramba, então todo mundo tava lá, é?hahahaaha! Tem mais coisa engraçada mas você sabe, é tudo em off, hahaha.

[Risos]

the vintage caravan

Da esquerda para direita: Ágústsson (bateria), Gra (Festivalando), Alexander (baixo) e Óskar (guitar e vocal). Ph: Saulo

F: Me falem sobre os festivais na Islândia, estou curiosa.

[Silêncio e depois risos]

F: Wow, porque o silêncio? hahahaha…

Ágústsson: Na verdade existem alguns bons festivais crescendo atualmente. O nosso favorito é um chamado Eistnaflug, que acontece em Julho, na parte leste do país,o mais longe de Reykjavík que você pode ir. É um festival de metal, rock e música alternativa. Todos os tipos de bandas. Ele está crescendo ao longo de 10 anos, hoje tem um público de 3 mil pessoas. Teve bandas como  este ano. Não é open air mas é muito bacana.

F: Imagino que na Islândia a temporada mais importante dos festivais é mesmo no verão, como no resto da Europa, correto?

Ágústsson: Ah, sim. E no verão existe um festival muito importante, chamado Secret Solstice. É um festival open air, no meio da capirtal Reykjavík. Rolam bandas como Radiohead, Massive Attack, Die Antiwoord e outros.

Óskar: A maioria deles é no verão. Mas tem um festival que se chama Rokkjötnar em que o Mastodon tocou ano passado. Para além desses, há o Iceland Airwaves, que acontece bem em novembro e é o maior festival do país. É um showcase festival com concertos em todos os cafés, bares e casas de shows da cidade. É muito legal!

F: E para finalizar, se vocês pudessem ter o próprio festival, como seria o lineup?

Todos: Certamente traríamos para nosso festival todos os colegas das turnês passadas, tais como Honeymoon Disease, Audrey Horne...

F: Valeu pela entrevista! Boa sorte na jornada de vocês e até a próxima!

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

2 comments

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  1. Renan 4 outubro, 2016 at 16:39 Responder

    Parabéns pela entrevista! Conheci os caras recentemente também. Curto muito essas bandas com uma pegada lisérgica e setentista, como Kadavar, Graveyard, Greenleaf, Crystal Caravan e o próprio Vintage. É uma pena o Graveyard ter encerrado suas atividades. Essa Abraxas costuma trazer bandas legais para cá ultimamente. Já trouxe Kadavar e este ano trouxe o The Shrine, que acabei dando bobeira e não indo. Domingo o show deles é aqui no Rio e vai ser muito legal, principalmente porque vai ter Hellbenders, que é uma banda sensacional. Até me admira do Hellbenders ainda não ter tocado num Rock Rio ou Lollapalooza. Chega até ser estranho ver o Vintage no Roskilde, pois é a mesma coisa que ver o Ghost no Lollapalooza ou o Venom do Primavera Sound.

    • Gracielle Fonseca 4 outubro, 2016 at 20:24 Responder

      Valeu demais, Renan! Que bom que vc curtiu! Pois é, a produtora tá mandando bem. E essas bandas estão ganhando um destaque merecido. Soam interessantes. Algumas delas parecem ser só uma cópia do que já existe. Mas outras, como é o caso da Vintage Caravan, elas reiventam e soam como uma banda dos dias de hj soaria, mas com pegada de tempos atrás. hahahaha, mas acredite, o Roskilde tem uma pegada metal e rock n roll muito legal. Nos dois anos em que estive no festival, curti ótimos shows. Claro que não foi no Orange Stage, o principal, rsrsrs. Mas as arenas alternativas, principalmente o Rising pega muito fogo para quem curte música pesada, como a gente. Beijão!

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