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Playlist de viagem para a América Latina ou sobre quando os EUA falaram espanhol

No momento em que escrevo este texto e preparo a playlist de viagem para a América Latina que o acompanha, eu não estou visitando nenhum país latino. Já faz um tempo desde o mochilão que me levou para festivais do Chile (Lollapalooza), da Colômbia (Estereo Picnic) e do Paraguai (Asunciónico). Eu estou nos Estados Unidos. Mas é como se, ao mesmo tempo, estivesse em um território independente latino hispanohablante.

Eu fiz uma conexão de duas horas no aeroporto de Miami para pegar um voo até Washington. Ouvi espanhol a maior parte do tempo. Cheguei em D.C e vi um anúncio do McDonalds em espanhol num ônibus. Voei para San Diego uma semana depois. A primeira pessoa com quem falei, ainda no aeroporto, foi com uma mexicana. Ela me explicou em espanhol onde pegar o ônibus que dá acesso à região central.

Cheguei no hotel, liguei a TV do quarto e vi a propaganda de um candidato às eleições estaduais do México – em espanhol. Voltei a ver o mesmo anúncio do McDonalds em espanhol num ônibus de San Diego. Tem também um comercial de uma seguradora com texto todo em inglês, mas que parodia o estilo melodramático das novelas mexicanas. E outro de uma das maiores fabricantes de celular do mundo cuja trilha sonora é uma música em alto e bom espanhol do duo colombiano Bombo Estéreo, um favorito meu e que figura na playlist que você vai ouvir daqui a pouco. O tema do comercial é viagem e o destino é o Peru. Poderiam ter feito uma viagem para a Índia ou para a Tailândia, e incluído a música de um artista asiático. Mas optaram por centrar tudo na América do Sul.

Em Los Angeles e Nova York, é natural ter anúncios em inglês e espanhol no transporte público, por exemplo, além de peças publicitárias exclusivamente em espanhol. Ainda em Nova York, uma caminhada por algumas das avenidas mais movimentadas do Bronx te transporta automaticamente para uma rua de comércio popular de alguma capital da América do Sul: letreiros em espanhol, música (latina) tocando alto para atrair clientes, lojas super baratas que vendem de tudo um pouco e cujos produtos estão expostos na calçada.

Eu não sei se o Trumpete vai levar adiante a história do muro na fronteira, mas alguém precisa avisar pra ele que isso é inútil. É inútil em qualquer situação, em qualquer galáxia, na verdade. Mas o fato é que os latinos dos países de língua espanhola já ocuparam esse lugar (lembrem-se que também somos latinos, só temos um idioma diferente). E quando se garante um lugar e certa visibilidade no país mais influente do mundo, é porque algo muito grande está acontecendo.

Despacito, pero no mucho

O sucesso massivo recente de “Despacito”, do porto-riquenho Luis Fonsi, primeira música totalmente em língua espanhola a atingir o primeiro lugar do Top 50 global do Spotify, é só a ponta do iceberg. Se vienen los latinos e o ritmo não é assim tão devagar, devagarinho como sugere o hit do momento. Só pra esclarecer: despacito é, literalmente, devagarinho em espanhol.

Se você ainda não ouviu, vai ouvir nos próximos dias ou próximas semanas “Me Rehúso”, do venezuelano Danny Ocean, um artista independente. A música atingiu o número 35 do Top 50 global do Spotify em dois meses. Chegou ao Top 50 de todos os países de língua espanhola. Em 11 deles garantiu um lugar no Top 5.

Sobre representatividade

Talvez estejamos caminhando para um momento em que será possível aos artistas latinos de língua espanhola ter um alcance global sem ter que lançar mão do inglês, como tiveram que fazer Shakira e Ricky Martin, por exemplo.

Num momento em que se fala tanto de representatividade no mundo todo, esse seria um cenário minimante justo, tendo em vista que o espanhol é a segunda língua mais falada no mundo, à frente inclusive do inglês, que domina as paradas globais (e também toda a indústria do entretenimento de alcance global) em função do poderio econômico e político alcançado pelos Estados Unidos depois da Segunda Guerra. (O mandarim é a primeira língua mais falada do mundo. Fico imaginando o dia em que teremos artistas chineses no Top 50 do Spotify. Mas acho – só acho – que antes tem que rolar uma abertura democrática por lá para tornar amplo o acesso a essas plataformas)

E o que mais pode bombar a qualquer momento? (ou que já está bombando)

Eu fiz essa pergunta a quem está no epicentro de tudo. Estou aqui nos Estados Unidos em um fellowship de empreendedorismo em jornalismo digital para a América Latina com um grupo de jornalistas da Colômbia, Nicarágua, Guatemala e Honduras. Pedi a eles que me dessem recomendações sobre artistas que merecem ser ouvidos por nós, brasileiros, e também sobre o que está em alta em seus países.

Palavras-chave: Reggaeton e Colômbia (não necessariamente combinadas)

Duas lições a partir dessas recomendações: olho na Colômbia e ouvido no reggaetton. Apesar de só minha colega Daniela ser a colombiana que deu recomendações, artistas colombianos foram frequentes nas sugestões dos demais. E o reggaetton é um dos ritmos mais recorrentes dentre os artistas citados.

Ao final, juntando tudo o que eles estão ouvindo, cheguei a uma playlist com artistas de oito países. Colômbia, Venezuela, República Dominicana, Honduras, Nicarágua, Porto Rico, Guatemala (algo me diz que o Mar do Caribe tem algo a ver com isso…) e, last but not least, Estados Unidos, o que merece uma nota. O artista em questão é Jencarlos, um dos muitos representantes do reggaeton. Ele é filho de cubanos nascido nos Estados Unidos. Mesmo tendo crescido em Miami, optou por cantar na língua dos seus pais. Juntei todo mundo no mapinha pra você saber de onde vem cada som que está na playlist ao final deste texto.

Agradeço à Ximena, da Nicarágua, que me deu um panorama vasto do que é quente no momento. Tem muito reggaetton, dancehall e diálogo do pop com ritmos locais de diferentes países. Daniela veio com uma gama variada do que rola em seu país, a Colômbia. Citou representantes da cumbia e velenato, rock, folk e jazz; gente nova, como Maluma, e um clássico, como Aterciopelados. Andrea, de Honduras, me apresentou ao Polache e Guillermo Anderson, artistas com uma veia política significativa. Carlos complementou com o rock do Pez Luna e Dellirium. Da Nicarágua, Ana me mostrou o ska do Milly Majuc, e Darling ao reggaeton de Don Omar e Sebastian Yatra. Francisco, da Guatemala, me mostrou o passado (Grupo Rana) e o presente (Pata de Conejo).

A prometida playlist de viagem para a América Latina: uma trilha sonora para o seu roteiro

Enfim, a playlist. Ela pode ser um ponto de partida para um futuro roteiro ou para despertar sua vontade de viajar para cada um dos sete países com artistas aqui representados. Ou para todos os demais. Pode ser simplesmente também uma viagem musical, aí direto da sua tela.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora também coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Além de uma das mães do Festivalando, sou colaboradora da Mixmag e do Brasil Post e autora do Porque eu gosto de música. Também ajudei Paul McCartney a falar uai em pleno Mineirão.

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