Foto Priscila Brito

Pau de selfie em festival: sim ou não?

O Lollapalooza Brasil proibiu. Nos Estados Unidos, o Lolla Chicago e o Coachella proibiram também. Fazendo companhia ao cocar de índio, o pau de selfie desponta como o novo acessório mal quisto e banido pela organização dos festivais. Oficialmente, a proibição é justificada direta ou indiretamente por questões de segurança.

Aqui no Brasil, na lista do “não pode” feita pelo Lolla, o pau de selfie figurava em um conjunto de itens potencialmente perigosos ou danosos, de latas e garrafas a substâncias inflamáveis. No festival irmão lá em Chicago, que acontece em julho, a produção explicou que não permitirá o acessório para acelerar a revista na entrada e para diminuir as obstruções entre fãs e músicos. Além disso, é regra do festival que as câmeras levadas pelo público não estejam acompanhadas de equipamentos de apoio, sejam tripés ou o próprio pau de selfie.

O Coachella, que acontece neste fim de semana em Indio, na Califórnia, também misturou o pau de selfie à lista de objetos proibidos por seu potencial de dano e perigo, mas lançou uma indireta ao chamar o acessório de “narcisstick” (em inglês, o termo oficial é selfie stick).

Na contramão, o Lollapalooza Chile não só permitiu como tinha camelô vendendo aos montes na porta, conforme eu pude verificar com os meus próprios olhos na minha viagem para Santiago. A propósito, a primeira coisa que me chamou atenção nos meus primeiros momentos dentro do Lolla Chile foi a profusão de paus de selfie em meio ao público – o vídeo no fim do post mostra um pouco disso em alguns shows. Já no segundo dia de Lolla eu não tive dúvida: o pau de selfie foi o grande hit do festival chileno. E apesar de tanta gente preocupada em pegar o melhor ângulo da foto/vídeo na hora que o Mark Foster cantava “Pumped up Kicks”, vi no Chile a plateia mais animada dos três países por onde passei (também fui na Colômbia e no Paraguai no mês passado). Do nível para “competir” à altura com o Brasil.

Eu acho as alegações de segurança dos festivais sensatas, mas ao mesmo tempo não houve registro algum de incidente no Lolla Chile que tenha sido provocado por um pau de selfie (e eu, particularmente, não me senti em nenhum momento ameaçada por um, apesar de ter ficado cercada por vários deles em muitos shows). Eu também tenho certa vergonhazinha alheia desses bastões e só passei a tirar fotos em shows/festivais (minhas e do evento) pra valer por causa do Festivalando, pois faço parte dessa geração no meio do caminho entre o analógico e o digital, que passou boa parte da vida se divertindo sem registrar essas experiências simplesmente porque era assim que tinha que ser, e que agora, diante da possibilidade de fazer registro de seja lá o que for, pensa um pouco sobre o que realmente é “registrável” e o que não é. Escolha minha, apenas.

Só que essa proibição ao pau de selfie, por mais que tenha uma justificativa lógica que a ampara e que por isso é bem resistente a questionamentos (a segurança), me parece também uma necessidade de dar uma resposta à altura a um comportamento que foi escancarado tão ostensivamente com a adoção massiva e super rápida do pau de selfie. Tem toda uma geração que aprendeu a se posicionar e se relacionar tendo como referência esse mundo louco e rápido inundado de gadgets e conectividade, e que identificou no pau de selfie uma ferramenta a mais para ajudar nisso, mas ao invés de deixar esse sinal de mudança dos tempos e de comportamento fluir, acaba sendo mais fácil para alguns proibir ao invés de entendê-lo.

É uma velha história que se repete na humanidade: há quem goste, há quem não goste, e poderíamos parar por aqui, cada um no seu quadrado. Mas vão estar sempre implicando com o pau alheio, suas preferências e o que se faz com ele.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

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