Ph: Nomoto/I Hate Flash

O que queremos com os festivais de metal no Brasil?

Este é um post dúvida, mas também poder ser um post provocação – vou deixar pistas aqui para que seja um pouco de um e outro. Eu não entendo muito bem o que queremos com os festivais de metal no Brasil. Queremos, no plural, pra envolver todo mundo – público e organizadores.

Depois desse tempo escrevendo sobre e respirando festival, é inevitável achar algumas coisas intrigantes, no mínimo. O que me instigou muito a falar sobre isso não é, necessariamente, uma situação vista pelas pessoas como algo ruim: 2017 é um ano praticamente recorde em número de festivais de metal rolando no país.

Quando chamo para essa conversa, não coloco TANTO o foco naqueles festivais já consagrados – mas tem coisa que também serve pra eles, ou naqueles festivais que a trancos e barrancos já possuem sua cara e público definidos, conquistaram longevidade e reconhecimento. Neste post, quero refletir sobre a nova leva de festivais de metal do Brasil. Também estou falando de um certo trauma: aquele tanto de festival nacional de metal que nasce, não cresce e logo morre.

Eu já tinha levantado algumas suspeitas sobre o assunto aqui neste post, sobre o Wacken e sobre uma falta de paciência que, em geral, o público brasileiro costuma ter. Mas sempre falta a gente refletir sobre algo. Nesse caso, faltou pensar sobre quantidade e qualidade. Neste ponto, é preciso revisitar uma máxima que sempre falamos aqui no Festivalando: “Quanto mais festival melhor”. Será?

Queremos festivais descartáveis?

Às vezes, rola uma relação muito descartável com os festivais de metal brasileiros. Alguns acontecem uma vez e nunca mais rolam. E nós, público, parece que somos apenas um número para ser computado entre lucros, e nada mais. Pois não parece que somos um público sobre o qual os organizadores querem pensar carinhosamente, ano após ano. Ou um público com quem se quer, em conjunto, construir uma cara para o festival. Não somos tratados como parceiros na jornada.

Quando converso com as/os camaradas da gringa, e elxs me contam de suas histórias de 10,15, 20 anos indo ao mesmo festival em seus países, dá uma certa invejinha deste tipo de relação. É sempre uma história bonita que a gente não vê muito por aqui, com exeção para as lindas histórias do Rock in Rio, da Kênia Trevizanni, por exemplo.

Descartável com muitos problemas, ou pouca empatia e muito foco no lineup

festival fãs

Ph: Allen. I Hate Flash

Sei que existem vários problemas que podem acontecer para que um festival não consiga se estabelecer no Brasil. Conheço até gente séria, que trabalha bem, mas não teve fôlego para levar as coisas em diante – por uma série de variáveis, inclusive de adesão do público. Porém, não entendo um monte de festivais que nascem sem se preocupar muito em construir adesão, desejo, uma identidade e experiências que façam o público voltar inúmeras vezes àquele festival.

O grande apreço que nós, o público, temos com o lineup também pode fazer com que os produtores foquem nesse quesito, façam esforços absurdos para garantir, antes de qualquer outra coisa, um lineup atrativo. Mas sem pensar na imersão do público nesse festival, sem construir uma relação de pertencimento ou de desejo, a fé no lineup deixa tudo muito frágil. O lineup de um ano não será o mesmo do outro. Poderá ter menor ou maior sucesso, sempre.

É o tal do slogan “rain or shine” do Wacken, que não diz somente sobre uma condição do tempo. Diz também que, independente do lineup do Wacken ( que há muito tempo vem perdendo espaço e relevância para outros festivais), os ingressos vão ser sold out só porque o Wacken é o Wacken.

Os festivais precisam ter um projeto de vida

wacken 1990

Equipe Wacken 1990: equipe especializada, milhares de profissionais envolvidos…sqn!

Parte dos festivais são descartáveis porque não fazem o seu projeto de vida.  Não definem seus objetivos a longo prazo. Quando o dono do Wacken diz que o festival nasceu sem a pretensão de se tornar o maior festival de metal do mundo, ele não mentiu. Mas isso não quer dizer que eles não tinham qualquer propósito ou plano. Queriam fazer um festival feito por fãs, para se divertirem todos os anos dentro do seu próprio povo. Levaram esse objetivo a sério e outras coisas vieram como consequência.

O Roça ‘n’ Roll, em Minas Gerais, também tem este espírito. Não quer ser o maior festival de metal do Brasil. Mas a cada dia, consegue se manter e ser um dos mais longevos, atraindo um bom público, construindo uma relação mais profunda com a audiência.

Já a nova leva de festivais parece ter objetivos muito rasteiros. Às vezes – posso estar errada, mas às vezes, parece uma briga de ego entre organizadores. Tipo, quem vai produzir o festival mais foda esse ano. Ou quem vai ter mais lucro, sei lá. Me pergunto: porque não se juntam e fazem esforços para criar um projeto de festival muito legal, ao invés de fazer o público gastar cada centavo do bolso atraído por um ou outro headliner em um festival a cada fim de semana? Por que não fazem esforços para encontrar consenso de datas com os artistas e produzirem um festival de verdade?

Um problema de definição, nomenclatura?

Já havíamos suspeitado também que, parte dessa profusão de festivais que surgem por aí seja um problema de nomenclatura. Para nós que somos festivaleirxs, parece que o termo festival tem sido banalizado. Juntam 4 bandas mahomeno pra tocar em um dia e já lascam ali no cartaz o nome “festival”. Será que festival é só isso mesmo? Juntar umas bandinhas e uma galera vendendo cd e camisa de banda, outra vendendo cerveja e uma comidinha?

Preferimos acreditar que não. Nossa opinião sobre o que é um festival já foi dada aqui neste videoselfie. E antes que venham dar carteirada de verbete de dicionário, SPOILER: não estamos de acordo com o Aurélio, tá? =P

Queremos festivais gourmetizados?

Será que os fundadores do Woodstock tinham noção de que um dia viria uma galera pra dizer que existe o lugar dos ~mais importantes~ num festival? Ou que teria um espaço gourmet no meio do gramado? Parece que os festivais de hoje em dia estão cada dia mais “top”, não é mesmo? Topzera...

A separação de área vip, pista vip é uma realidade bem presente nos festivais e shows aqui no Brasil. Lá fora tem área vip também, mas percebo menos fetiche da gringolândia em adquirir ingressos vip do que aqui no Brasil. Por um lado é fetiche, pois muita gente exibe um passe vip como se ele fosse mais fã de metal por isso, ou mais especial do que os demais por isso. Mas não é. Ele somente tem mais grana.

Tem o outro lado também, de gente que quer mais calma e conforto. Claro, existem vantagens muitas nas áreas vips para quem não está mais na vibe do batidão que é um festival. No entato, sabemos que alguns festivais sem área vip solucionam muito bem a questão do descanso com áreas arborizadas, fartura de bancos, redes para descanso, puffs, água de graça etc.

Aqui no Brasil, contudo, o direito ao conforto mínimo vira uma mercadoria a parte, motivo para cobrar um ingresso mais caro. Além disso, é uma forma de segregação muito elitizada, já que os preços dos vip passes são absurdos – e no Brasil, os preços dos passes normais também.

Queremos comer bem, com qualidade, ou queremos comida gourmet em festival?

Festival é um lugar em que se gasta muita energia. É necessário comer bem para manter os motores funcionando. É legal comer bem com preços justos. Mas, parece que os festivais estão na onda topzera gourmet. Será que isso vai garantir comer bem com preços justos?

A princípio, o anúncio de espaços de alimentação gourmet fazem com que tenhamos esperanças de encontrar comida variada, bem feita, com cuidado. Mas, será que o nome gourmet vai deixar que essa comida tenha um preço justo e uma quantidade que mate a fome que surge em festival? Nada está garantido, não é mesmo?

Penso que, mais que comida gourmet, queremos comida de verdade, que mate a fome e que tenha preço justo dentro do festival. Então, fica a dica.

Queremos um festival que nos dê frio na barriga a cada edição

Quando um festival consegue fazer seu público ter frio na barriga a cada nova edição, morrer de ansiedade de esperar, significa que cumpriu parcialmente seus objetivos. É muito bonito quando a gente organiza o nosso calendário em função de um festival. Ou quando o festival vira evento importantíssimo para reunião de amigos e famílias, por exemplo.

As relações com os festivais precisam superar essa relação comercial – apesar de não poder descuidar dos cuidados com as pessoas que pagam para estar nele. As pessoas precisam se sentir bem no festival, sentir que pertencem a ele de alguma forma, desejar as experiências guardadas aí em cada ano. Não estou falando do mesmo desejo que se tem por um novo celular, ou uma nova calça.

Os festivais de metal precisam aprender que queremos um lugar para termos orgulho de chamar de ‘nosso festival de metal’, um lugar que atraia gente de fora também, com vontade de viver experiências únicas que ele pode proporcionar.

E vocês? O que acham sobre tudo isso? Comentem, opinem, desabafem aqui nos comentários!

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

2 comments

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  1. Renan 27 Abril, 2017 at 16:43 Responder

    Estava lendo uma matéria da Collectors Room do dia 21 de abril, data em que fez cinco anos do fatídico fiasco que foi o Metal Open Air, no Maranhão. Achei que você ate iria citar o caso do MOA. Realmente falta um festival que tenha a cara do público do metal aqui no Brasil, como o Rock In Rio vem se consolidando com relação à sua marca. Ah, mas metal aqui é um gênero que não tem tanta força aqui no Brasil. Infelizmente isso é verdade. Mas acho que falta maior comprometimento da galera que faz acontecer a cena metal aqui no país. Esse ano teremos Maximus, Liberation e Overload. Porque não fazer um festival único de metal com muitas dessas bandas que vão tocar, em mais dias e num local maior que pudesse agradar a todos? Mas isso não passa pela cabeça dos produtores, que querem lucrar em cima de um único artista que nunca veio pra cá e que cobra um cachê caro. Acredito que a situação está querendo mudar, mas vai ser a longo prazo. Hoje temos produtoras como Abraxas, Liberation e Overload com competência para fazer pequenos festivais e com feedback bacana por parte do público. O público só deveria ser mais respeitado no que concerne a preço de ingressos, estrutura e outras questões. Quer dizer que o Liberation e o Overload não são festivais? Hehe. Também concordo com esse seu pensamento. O número de festivais a cada ano vem crescendo. Tanto que este ano vou ao RIR, Maximus, Liberation e Overload. Quanto a questão de identidade, se alguém quer fazer um festival de grande porte por aqui, deveria se espelhar no que o RIR vem fazendo a cada edição, e usando a sua imaginação para que criasse uma identidade própria. Sem falar nessas empresas especializadas em logísticas, como a ICS, que organiza o WOA. Ainda existe uma mídia fora do eixo RJ-SP que trabalha com competência, como é o caso de vocês, da Collectors e da Van do Halen. No mais, gostei do texto.

    • Gracielle Fonseca 2 Maio, 2017 at 10:54 Responder

      Ei, Renan! Eu já dei as minhas chineladas no MOA em outro post, hauahau.Mas então, é uma pergunta mesmo. Será que esse tanto de festival aí é mesmo festival? Porque o tamanho não é o que importa, de verdade. A experiência que se oferece, essa sim é definidora do que se pode chamar ou não de festival, em nossa opinião. Os formatos que vimos lá fora são muito mais imersivos, oferecem atividades para além do gastar ou se envolver com atividades de patrocinadores. A interação com as pessoas é doferente, também, de alguma maneira. Os festivais de metal no Brasil seguem tateando formatos, mas dando muita bola fora, principalmente com essa tendência segregacionista de ingressos muito caros, ou ênfase em área vip etc. Acho que falta conexão, criação de significado com o público. Não existe isso. Somos clientes, apenas, não somos vistos como um público caro, respeitado. Mas é verdade também que o metal no Brasil ainda é um estilo menos popular do que outros tantos, apesar de que podemos olhar para a década de 80 e já entender que aconteceram muitas coisas e a cena cresceu bastante. Bjs e obrigada!!

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