mais uma rodada festivais e acessibilidadeFotos: Arquivo Pessoal

Mais Uma Rodada: um cadeirante, os festivais e acessibilidade

Quem toma conta do [email protected] [email protected] de hoje é o Pedro Américo. Assim como nós, ele não se contentou em apenas ir a festivais e criou um projeto para mostrar suas experiências e dar dicas sobre os eventos: o canal Mais Uma Rodada, lá no YouTube. O detalhe maior dessa história é que o Pedro mostra tudo de uma perspectiva bem própria: ele é cadeirante e em seus vídeos fala de festivais e acessibilidade para incentivar outras pessoas com deficiência a também terem experiências em eventos ao vivo.

Acompanhe agora a história do Pedro e veja as rodadas dele no Lolla, Tomorrowland, Coala Festival e em grandes shows:

Mais Uma Rodada: um cadeirante, os festivais e acessibilidade – por Pedro Américo

mais uma rodada festivais e acessibilidade

Hello pessoas!

Tudo bem com vocês? Aqui quem vos fala é o Pedro Américo, criador do projeto Mais uma Rodada, onde compartilho minha paixão por shows e festivais, mostrando meu ponto de vista: sentado! E hoje, aceitei o convite das meninas do Festivalando para contar um pouquinho das minhas experiências de acessibilidade e muita curtição nesses eventos.

Como disse anteriormente, me chamo Pedro Américo, atualmente tenho 31 anos, sou uma pessoa com deficiência, cadeirante e desde que me entendo por gente sou apaixonado por música. Tenho uma doença degenerativa, Distrofia Muscular, a qual diminui a força muscular gradativamente e em seus estágios mais avançados limita severamente os movimentos. Em decorrência disso, faço sessões de fisioterapia pela vida toda e sou cadeirante há 10 anos.

Em meio a tudo isso, ouvir música e me conectar com todo esse universo foi a forma que encontrei para enfrentar os momentos mais tensos. E vamos combinar né, nada melhor do que música boa para deixar a vida mais leve! Pra nos deixar mais fortes!

Mas, nesse cenário, alguns anos atrás, ir num grande festival ou num mega show era um item distante e praticamente inalcançável da minha famosa “lista de coisas a fazer antes de morrer”. Realmente cheguei a pensar que jamais conseguiria riscar esse tópico da minha lista.

Infelizmente isso acontece na mente das pessoas com deficiência, essa sensação de que certas coisas não são para elas. O sentimento e às vezes até a certeza que passarão pela vida sem realizar coisas sensacionais. Por mais que todos à sua volta lhe digam que tudo é possível e lhe incentivem a explorar o mundo, é preciso muita força interior pra sair da inércia. É preciso conseguir de fato mudar a perspectiva.

Madonna e a superação do medo

No meu caso foi preciso de um momento de tudo ou nada! E isso aconteceu em 2008. Foi quando, depois de muito tempo, Madonna confirmou sua vinda para o Brasil com sua turnê na época, a Sticky and Sweet. A Material Girl sempre foi minha maior inspiração, sua persona transgressora sempre me fez questionar o quanto mais eu posso fazer na vida.

Ela não vinha pras terras tupiniquins desde 1993 e agora que finalmente estaria por aqui, eu só conseguia pensar uma única coisa: “Eu vou estar dentro daquele estádio, seja da maneira que for! Eu vou nesse show!”

Deu medo.

Esse medo por fazer coisas fora da zona de conforto geralmente é potencializado nas pessoas com deficiência. Nós temos receio porque as barreiras arquitetônicas podem ser cruéis, a locomoção pode ser bem difícil, a falta de informação ser um problema real, e sempre o fantasma do preconceito está nos rondando.

Agora imaginem minhas dúvidas para ir num show desse porte: será que vai ter banheiro pra mim? Será que vou conseguir enxergar o palco? Vai ter uma multidão na rua para eu atravessar? O carro tem que parar muito longe da entrada? E se chover? Vai ter entrada especial? Tem lugar pra mim dentro do estádio? Meus amigos vão poder ficar comigo, ou vou ter que ficar sozinho num canto? Será que não vou morrer pisoteado?

Obviamente, tentei me informar sobre tudo isso. Sem sucesso, afinal, de fato eu não sabia a resposta para nenhuma dessas perguntas, mas a empolgação era tanta, a adrenalina era tamanha, que nada ia me impedir de estar lá. Eu, Madonna e mais 70 mil pessoas!

Então, em 18 de dezembro de 2008, eu risquei esse item da minha lista: fui no show da Madonna, que é um mega show. Foi algo surreal, incrível, difícil, mágico, ouso dizer: divino. Quando ela entrou no palco, a energia emanada no Morumbi era quase palpável.

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Realização

Sabe a sensação de sonho se realizando? Exatamente isso! Às vezes, até hoje, me pego pensando: “Nossa! Eu fui!”

Desde então fui pego por esse vício. O vício de sentir toda essa descarga de adrenalina que é estar em um grande show. Imaginem a cena: um caldeirão com cerca de 70 mil pessoas felizes, cheias de expectativas, cheias de boas vibrações, celebrando a música… 70 MIL PESSOAS CELEBRANDO!

Não tem como não ser contagiado por essa energia.

Naquele 18 de dezembro eu só conseguia pensar: “eu quero que o universo todo sinta isso! Todas as pessoas que eu conheço e que eu venha a conhecer, TÊM que ser contagiadas por isso também! Quero passar à frente toda essa boa energia que estou sentindo agora!”

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Mais Uma Rodada e a experiência de YouTuber

Comecei minha saga como caçador de festivais. Hoje vou a todos os shows que consigo, que tenho oportunidade. Certamente a maioria deles não são grandes produções como Madonna, U2 e alguns poucos com tamanha estrutura, mas mesmo assim me encantam, seja pela produção musical impecável, pelo frescor da novidade, pela animação da galera, ou simplesmente por serem tão divertidos! Sempre é uma experiência válida. Para cada show tenho uma ótima história para contar! Quem já esteve num evento desse sabe que é algo que todos deveriam fazer ao menos uma vez na vida!

Lollapalooza, Tomorowland, Sonar… Madonna, U2, Moby, Kraftwerk, Shakira, FatboySlim, One Republic, Jamiroquai, Lady Gaga, Florence +The Machine, Muse, e por aí vai… Quase 10 anos depois e com muitos shows e festivais no currículo, decidi documentar tudo e passar adiante minhas experiências. Assim surgiu a ideia do meu projeto, o MAIS UMA RODADA, que através de vídeos e postagens, divulga informações e dicas de como é a acessibilidade nesses eventos, como se preparar para ir, e tudo mais que esteja em torno desse universo. Quero poder incentivar outros deficientes a vencerem o medo, saírem de casa e enfrentarem o que for para terem essas experiências!

Porque, pra mim, é essa adrenalina que se transforma em armadura quando meus piores fantasmas tentam me assombrar. É buscando no inconsciente todos esses momentos mágicos que diante das tensões da vida eu penso: the show must go on!
E não apenas continuar… mas que seja com grandiosidade, como um mega show.

Naquele 18 de dezembro, ao final da noite eu só conseguia pensar “but if I die tonignt at least I can say I did what I wanted to do! Tell me how ‘bout you?” (4 minutes – Madonna)

Quero poder ir dormir todos os dias com esse mesmo pensamento.

Conheça também o projeto Singing Hands, que oferece acessibilidade em festivais para pessoas com deficiência auditiva

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5 comments

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  1. Andrea Alexandre dos Santos 25 Maio, 2017 at 14:56 Responder

    Pedro Américo é um exemplo bem motivador,pois mesmo com seus obstáculos
    ele frequenta diversos festivais, e pessoas que não têm essas mesmas limitações como eu fico desanimada, estou sem direito ao desânimo e ao mimimi.

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