Huldre Official

Huldre: sedução e perigo no Aalborg Metal Festival

Vencedores do Wacken Metal Battle Dinamarca em 2014 e terceiro lugar na competição de bandas internacionais no Wacken do mesmo ano. Uma banda dinamarquesa em que se deve prestar o mínimo de atenção, mesmo que você não seja tão ligado ao Folkmetal, que é essencialmente o que eles tocam. Foi assim que me dispus a assistir à apresentação deles no Aalborg Metal Festival desse ano. E preciso dizer que não me arrependi.

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Lunah Lauridsen – Metalmoments.net

Lá no Wacken não consegui ver o show e estava muito curiosa, pois os vídeos do festival mostravam uma plateia insana e uma apresentação vigorosa. Inclusive os dinamarqueses do público estavam vigorosos – para os quais devo imensas desculpas ao chamá-los de público sem sal no Roskilde. Bom, pelo menos no show do Carcass e em alguns outros no mesmo festival, eles estavam realmente sem sal. Mas o Huldre e o Aalborg Metal Festival como um todo me fizeram mudar essa opinião, e te conto o porquê.Formulei duas hipóteses:

  1. Quando se evoca a ancestralidade desse povo, origens, orgulhos, mitologia, ah meu bem, poderia tocar até forró que esse pessoal estaria saltitando feliz e gritando ” eu sou viking!”. E tem muito a ver também com a valorização deles mesmos enquanto nação, valorização dos produtos nacionais e, portanto, valorização da música e cultura nacional – quando você vai ao supermercado aqui, um simples pepino, batata, ou outro vegetal, por mais que saibamos que possuam origens diversas, quando é produzido aqui sempre tem a bandeirinha vermelha e branca, e a label “dansk”! E tenho notado que, mesmo sendo mais caros, os dinamarqueses optam por esse produto nacional na maioria das vezes.

  2. Quando o festival é focado mais na música do que em milhões de atividades, festas e zueiras, o público parece guardar mais energias para os shows.

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Desde o momento da preparação do palco, vi que esses sedutores e perigosos seres das florestas da mitologia nórdica tratavam a música como parte vital de si mesmos, de forma muito especial. O palco era cuidadosamente ornamentado: pedaços de madeira, chifres ou galhadas de veados, crânios, ossos, flores e folhas,meticulosamente colocados pelos membros da banda em pedestais, microfones, bateria…Nanna Barslev, diva mor daquela noite, simpatia, talento e animação em forma de mulher, entoava a primeira canção: Beirblakken. Esta, tocava a alma de tanta beleza e sinceridade.

O setlist foi basicamente o que vi do vídeo do Wacken. Apesar de ter sido formada em 2006, somente em 2012 a banda gravou o primeiro album de estúdio, “Intet Menneskebarn” ( nenhuma criança humana), que logo no lançamento foi eleito pela mídia especializada como a surpresa do ano no metal. Assim, a banda não tem muito mesmo o que mudar no set list. O qual de qualquer maneira é fantástico. Depois da introdução, Ulvevinter foi tocada e convocou todos a fazer parte daquele ritual musical. Dentre as demais músicas, destaco a potente Knoglekvad e Gennem Marsken como ótimos trabalhos executados ao vivo.

Mas, o que realmente consagrou naquela noite Nana Barslev como rainha do barco viking, diva das florestas escandinavas foi mesmo a Spillemand, quando ela se juntou ao público para festejar em meio a uma formidável “dance-mosh pit”. E, quando retornou ao palco, recusou água e pegou o copo de cerveja. Uma golada e Skål!(ou saúde! cheers!).

Sem dúvida Huldre representou uma quebra da atmosfera super true do Aalborg Metal Festival e uma agradável surpresa para os ouvidos. Os músicos têm como background desde o folk, o metal, reggae, música dinamarquesa, death e black metal. Mas o trabalho deles, li em uma crítica on line e tenho que concordar, não soa como metal em que se adiciona folk music. Mas sim, como folk music em que se adiciona pitadas generosas de metal (as pitadas generosas ficam por minha conta).

Lobos, elfos, riffs poderosos, instrumentos medievais, florestas, trolls, cultura nórdica em geral e mais de meia hora de suor. E para mim, aulas de dinamarquês/nórdico antigo também:

– Você não está pronunciando isso corretamente, não é Hul D-R- E, o som é Hul-D-R-R.
– Hul- D-A-R?
– Não!
– E o seu nome, como é que eu pronuncio mesmo?
– Esquece!

Os dinamarqueses precisam ter paciência comigo, afinal, quando tentam pronunciar meu nome eles também só conseguem falar G-A-R-R-A- C-I- E-L !

Como disse desde o Início, Huldre é uma banda que merece aparecer pelo menos uma vez na sua playlist. Nesse caso, confira aqui algumas das músicas de trabalho. Mas já aviso que ao vivo  é  ainda mais interessante.
Caso tenha se interessado em ver mais coisas, aqui está o site oficial.

E posso dizer que mais uma lição de sedução musical me foi dada. A música toca você, independente do que você diz que prefere. Estar num show diferente daquilo que você tem costume de ouvir é correr esse perigo. A competência de uma banda está aí, em seduzir nas situações perigosas. E que eu corra mais perigos como estes. Tak Huldre.

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

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