Fotos Priscila Brito

Estrutura Montreux: casa não é impecável, mas é bem arrumada

Depois de me maravilhar com o festival de Montreux, comparei o evento a uma casa pelo seu aspecto convidativo e pela sensação de conforto que tive ao longo de quatro dias circulando pelos vários espaços onde ele acontece. No quesito técnico a metáfora da casa continua se aplicando. De modo geral, a casa é bem arrumada, mas tem uma baguncinha aqui, outra ali e isso não pode passar batido. Voilá:

Transporte
Acho que não há aspecto no qual Montreux brilhe mais que no transporte. Há uma grande oferta de ônibus e trens até tarde da noite e pela madrugada que circulam não só pela cidade de Montreux, mas também por cidades vizinhas, como Vevey, Lausanne e Genebra. Como as distâncias são curtas, é comum que o parte do público do festival more ou se hospede nessas cidades próximas. Eu fiquei em Vevey, a sete minutos de trem de Montreux, por exemplo.

O quadro de horários dos ônibus e dos trens é muito bem detalhado no guia do festival, amplamente distribuído no Centro de Convenções, onde a programação acontece, e na estação de trem de Montreux.

O grande destaque no que diz respeito aos ônibus é a tarifa. Ou melhor, a não-tarifa. Entre as 18h e as 5h há linhas gratuitas para quem chega ou vai embora do festival. O ponto de ônibus fica exatamente em frente ao Centro de Convenções, não sendo necessário perder tempo para ter acesso ao transporte. O porém é que alguns veículos partiam lotados. Em alguns dias, notei um leve engarrafamento por volta da meia-noite, no horário em que terminavam os shows no Auditório Stravinski (o que concentra mais público), pois há quem ainda vá de carro ao festival.

A gratuidade nos transportes pode se aplicar também aos trens, caso você tenha o Riviera Card. Aqui neste post eu explico como funciona este benefício, que te permite circular pela Riviera suíça sem pagar nada nos trens e ônibus em qualquer hora do dia.

Informações
Montreux dá uma escorregada quando o assunto é informação online. O site tem um guia de informações práticas, mas elas não estão tão bem organizadas e explicadas como no guia de papel – caso do transporte, por exemplo. Mais importante de tudo: não há no site informação sobre o pontinho exato no mapa onde o festival acontece (nome do lugar, nome da rua, etc).

A cidade é pequena, eu sei. Só há uma estação de trem na cidade e ela está a poucos metros do Centro de Convenções, eu sei. Mas esse pode não ser um dado tão óbvio assim pra quem vai ao festival, e também à Suíça, pela primeira vez. Só consegui descobrir que tudo acontecia no e em torno do Centro de Convenções, que fica na Grand Rue, quando achei dentro do site um mapa em pdf das barracas de comida (!!).

In loco, a organização é mais eficiente. Logo no desembarque do aeroporto de Genebra me deparei com um estande do festival que oferecia guia e mapinha à vontade para os visitantes. O mesmo material também era distribuído na saída da estação de trem de Montreux e encontrado dentro do Centro de Convenções. Informações bem detalhadas e bem organizadas tanto sobre a programação quanto sobre aspectos práticos de alimentação e transporte constavam no material impresso. Tudo em inglês e francês. Havia também placas e mapas instalados em pontos estratégicos, mas apenas com informações em francês.

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Hidratação e comida
Em termos de diversidade de cardápios e de formatos, Montreux capricha no quesito alimentação. Nas áreas internas há restaurantes com jeitinho chique pra quem está a fim de um jantar e pâtisseries (a nossa boa confeitaria) com delicinhas da culinária francesa, que tanto se sobrepõe nessa região da Suíça. No parque e nas margens da Riviera, onde a circulação é livre e acontece toda a programação musical gratuita, há bares ao estilo de pubs, especializados em coquetéis ou só em cervejas, e muitas barracas de comida de várias partes do mundo, fast food, doces, sorvetes, sucos naturais e o que mais seu estômago (e seu bolso) derem conta.

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Estrelinha dourada para o guia prático fartamente distribuído, que sinaliza a localização exata dos 32 bares e restaurantes, identifica o tipo de comida servida e ainda informa em quais há opções vegetarianas e orgânicas no cardápio <3.

O preço, claro, não é o mais barato que você vai encontrar na cidade – na verdade, não há nada exatamente barato na Suíça. Um muffin custava 4,50 francos (R$ 11) dentro do festival e 2 francos (R$ 5) no supermercado em frente ao Centro de Convenções. Na média, crepes, pizzas e outras comidinhas rápidas ficavam em torno dos 10 francos suíços (R$ 24,50).

Para se hidratar, só na base do franco suíço. O único festival dessa história que é uma mãe e te dá água de graça é o Roskilde! Especificamente no caso de Montreux, para qualquer tipo de bebida que você comprasse, era necessário pagar mais 2 francos suíços pelo copo. Um copinho fofo, todo estilizado com cartazes vintage do festival, criada para ser um souvenir, mas um copinho que adicionava R$ 5 à sua conta no bar.

Conectividade
“Non ecsiste!”, bradaria o padre Quevedo. Apesar de o meu celular ter identificado a rede wi-fi aberta do festival em diversos pontos, sempre com o sinal cheio, em nenhum momento consegui me conectar.

Limpeza e banheiros
Apesar da circulação intensa do público ao longo de todo o dia, não havia sujeira que saltasse aos olhos em nenhum dos ambientes do festival. Os banheiros, enfin, não eram do tipo químico nas áreas de acesso gratuito. Instalados numa espécie de trailer, estavam usáveis na medida do possível, tendo em vista que a circulação de gente é intensa o tempo todo. Dentro do Centro de Convenções, banheiros tradicionais, com água encanada e limpos, tanto em áreas de livre circulação do público quanto na área do Auditório Stravinski, onde só se entrava com ingresso.

Assistência Médica
Havia apenas um posto médico, instalado dentro do Centro de Convenções. Achei pouco. No mínimo mais um seria necessário na área externa, no parque e às margens da Riviera. Não só porque esta é a área de maior fluxo de pessoas, mas também porque toda a área do festival, do parque Vernex ao The Studio, se prolonga por uma extensão de meio quilômetro. Ninguém merece ter que andar, andar e andar enquanto passa mal para ter atendimento médico.

Compra de ingresso
Dois terços da programação do festival de Montreux é gratuita, logo você não terá que necessariamente passar pelo processo de compra de ingressos. Foi o que a princípio aconteceu comigo, pois foi exatamente a programação gratuita que me levou até lá.

Há os shows pagos também, e acabei resolvendo ver alguns deles assim que cheguei lá, bem no impulso de pessoa surtada por show. Comprei na bilheteria, sem filas, e paguei com cartão pré-pago de viagem. É possível comprar ingressos também pelo site e até por um número telefônico internacional disponibilizado para quem vive fora da Suíça. Mas não testei o serviço, o que me impede de dizer se há restrições e empecilhos como aconteceu comigo e com a Gra na compra de ingressos para o Roskilde (eles não aceitam cartões de crédito emitidos fora da Europa ou dos Estados Unidos, mesmo que eles sejam internacionais).

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Um detalhe é que no dia do show – somente no dia do show – você tem que trocar seu ingresso por uma pulseira, que é o que de fato te dará acesso aos auditórios. O processo foi rápido e não enfrentei fila alguma para receber as pulseiras. Havia dois postos de troca de pulseiras, dentro e fora do Centro de Convenções.

Segurança
Havia um posto policial ao lado do Centro de Convenções, mas não cheguei a presenciar nenhuma situação que tornasse necessário o trabalho da polícia. Na entrada do Auditório Stravinski e do The Studio, o clube de música eletrônica, havia uma revista básica e rápida de bolsas. Estranhei que o mesmo não ocorreu na Rock Cave, ambiente igualmente fechado como os demais. Fui a dois shows lá e em nenhuma das vezes houve revista.

Ainda na Rock Cave e no The Studio havia um claro e necessário controle de fluxo de público, uma vez que ambos os espaços tinham entrada gratuita. Só era liberada a entrada de mais gente quando pessoas deixavam o local. Mesmo assim, não cheguei a ter que esperar em filas para entrar nesses dois espaços.

Detalhe curioso no quesito segurança diz respeito à preocupação da organização com a saúde dos ouvidos. Sim! Na entrada de todos os ambientes fechados havia protetores de ouvido disponíveis gratuitamente. O público obedeceu muito bem à recomendação: na entrada dos shows os recipientes estavam cheios. Na saída, caixinha vazia. Sinal de que todo mundo protegeu os ouvidinhos. Inclusive, vamos tratar da quase onipresença desses protetores em festivais europeus em um futuro post.

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Berçário, guarda-volumes, caixa eletrônico, casa de câmbio e até um estande de informações sobre doenças sexualmente transmissíveis (oi?!) estavam à disposição do público. No somatório geral, apesar de alguns deslizes, a organização não falha em nada a ponto de te fazer passar algum perrengue. Ponto pra Montreux, que no quesito musical é impecável.

Transporte10
Informações9.5
Hidratação e comida9
Conectividade6
Limpeza e banheiros9.5
Segurança10
As chances de um festival na Suíça ser irretocável são muito grandes e Montreux, com toda sua tradição, não foge à regra. O único deslize do festival diz respeito à conectividade: apesar de oferecer internet gratuita para o público, a conexão não funcionou em nenhum ponto do festival. Fora isso, só elogios, principalmente ao sistema de transporte que, além de eficiente (óbvio, é Suíça!), é gratuito para quem vai ao festival.
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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora também coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Além de uma das mães do Festivalando, sou colaboradora da Mixmag e do Brasil Post e autora do Porque eu gosto de música. Também ajudei Paul McCartney a falar uai em pleno Mineirão.

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