Dor de cotovelo de festival #2

Os metaleiros também amam – como já dizia um grupo brasileiro do movimento musical lira paulistana, o Língua de Trapo. Definitivamente amamos. E amamos tanto esses festivais de metal que parecemos viver em função deles, naquela relação quase doentia em que você só é feliz devido à existência do outro, sabe? Assim, ao pensar que é preciso atravessar um longo inverno sem os festivais, para depois reencontrá-los somente no próximo verão, isso faz qualquer casca grossa sofrer. A dor de cotovelo vem fulminante e irremediável. Porém, ela é convertida em decibéis e notas um pouco diferentes das dores de cotovelo das pessoas comuns. E é uma dor de cotovelo em fases:

Fase 1 – “por que você fez isso comigo, éramos tão felizes!”: Costuma ser bem crítica. Você passa várias horas do seu dia assistindo às filmagens dos shows, compra todos os dvds dos festivais, revira seus souvenirs e fotos. Talvez seja um ponto comum com outras dores de cotovelo vivenciadas por aí. Geralmente, a trilha sonora é no nível Wasting Love, Deceiver of the Gods, Grace… lembramos dos shows lindos e saudosos do Iron no Rock in Rio, da alegria e vida que o Amon Amarth traz cheio de simpatia viking sueca para os festivais de metal da Europa, e de como o Apocalyptica fica elegante e chique num palco do Wacken. Essa é a nossa fase mais doce e melosa. Aproveite, pois em seguida a coisa fica feia.

Fase 2 – ” faz a gótica decrépita e depressiva“: Você se dá conta de que realmente acabou, não há mais volta e um longo inverno se aproxima. Lembra daquele vento frio das noites do Roskilde? Pois é, ele vem traduzido em música quando você ouve Funeralopolis, do Eletric Wizard, só que sem plateia, palco, luz…você lembra que não viu o show do Pale Horse Named Death por conta do conflito de horários no Wacken, e deseja estar enterrado numa “shallow grave”, com uma “nameless stone” ainda por cima, pois você não é nada, ninguém se importa contigo. Essa fase é meio autodestrutiva, mas geralmente todos sobrevivemos e ressurgimos das cinzas, com uma força que vem das profundezas e nos embebe de maldade…

Fase 3 – “vou te cortar em mil pedacinhos, desgraçado!”: Agora o bicho pega, fudeu, sai de perto! Você deixa todo o ódio, todas as falhas e deslizes cometidas pelos festivais virem à tona! A dor de cotovelo da metaleiragem começa ser curada com a imaginação cheia de atrocidades contra esses ordinários, salafrários e ingratos desses festivais que de repente nos deixam assim, sem explicação! Não dão mais notícia, vizualizam nossas mensagens e não respondem! So, Kill ‘Em all!! Quero mais é chutá-los e perguntar: Are you dead yet? Aqui a gente escandaliza e finge que “I don’t care” que o Obituary não tocou “Don’t care”, por exemplo. E que o putinho do Phil Anselmo não tocou “Domination” completa em nenhuma das apresentações. Nem no Roskilde nem no Brutal! Por falar em Brutal, “I wont forget” tudo que ele nos fez, apresentando-nos ao Shinning da Noruega, e deixando nossa vida mais miserável do que nunca sem o show deles! E quando eu lembro que no Brutal Assault não tinha água potável de graça, e começo a pensar que deveria ter bebido então o sangue dos organizadores para matar a sede…aí que a frase “lust for humam flesh” do Six Feet Under começa a fazer todo o sentido, sabe?
E por que esses filhos da mãe do Wacken colocaram Motorhead e Carcass no mesmo horário, um do lado do outro?? Acham que iriam me enrolar com “Lost Woman Blues”? Então foda-se o Motorhead, por que a gente começa na filosofia do “when all is said and done, ther’s no love lost!”. Não há paixão imortal, seus energúmenos com ingresso esgotado para 2015!
É, aqui é puro ódio, é treta apocalípitica, então deixa eu ouvir Fleshgod Apocalypse e ir para marte, porque marte precisa de mulheres vermelhas e raivosas!

Fase 4 – “put yourself together” : Descontou seu ódio em tudo e todos? Ótimo! Aqui você lembra que entre um festival e outro tem showzinhos para distrair, e que você pode até pensar em conhecer outros estilos musicais, para sair dessa relação meio escravizadora da metaleiragem. Isso não faz bem, e você as vezes precisa realmente respirar novos ares. Então, para não dizer que não tentei isso e para dar o recado, Låt det Läka, ou “let it go”, “deixa passar”, música que escolhi da banda sueca de Reggae, a Ursprunget… ops, saudade do Popegoja… vai começar tudo de novo!

Brincadeira! Depois disso, tudo fica na santa paz e nossa senhora dos Blast Beats nos protege. A vida volta ao normal, até a próxima grande desilusão festivaleira. Brincadeiras a parte, eu curti demais essa Playlist! Dê uma chance a ela, mesmo que você não esteja passando por nenhuma dessas fases descritas acima!

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

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