banheiros unissex em festivaisAnita van den Broek via Shutterstock

A ciência comprova: banheiros unissex em festivais são a melhor opção para todxs

Quando estive no Governors Ball, em Nova York, e precisei ir ao banheiro, me deparei com uma fila única, formada por meninas e meninos. Era a primeira vez que via um arranjo de banheiros unissex em festivais, sem a tradicional separação entre banheiro feminino/masculino. Ainda na cidade, eu teria a mesma experiência dias depois, no Northside Festival, em um show de graça no Queens e em um restaurante em Midtown Manhattan, a área mais apinhada de turistas da cidade.

Antes de ir pra Nova York, vi banheiros neutros em Washington, numa Starbucks e no prédio corporativo que frequentei por uma semana por razões profissionais. Como eu já havia acompanhado no noticiário toda a discussão que existe nos Estados Unidos em torno dos banheiros gender-neutral, com direito a legislação em alguns estados que estabelece esse tipo de arranjo para melhor atender as diferentes identidades de gênero, logo imaginei que tudo o que eu vi de perto era um reflexo disso. E é provável que realmente seja.

Mas, agora, além das demandas legítimas de inclusão por parte de quem não se identifica com a classificação binária de gênero, a ciência diz que banheiros neutros são a opção mais inteligente e eficiente.

Dois matemáticos da Universidade de Ghent, na Bélgica, Kurt Van Hautegem e Wouter Rogiest, especialistas em teoria das filas (sim, amiga, isso existe!), comprovaram que banheiros unissex reduzem drasticamente as filas. Consequentemente, reduz-se o tempo de espera das mulheres, as mais prejudicadas com a separação por gênero.

Eles chegaram a essa conclusão depois de usar o modelo de tráfego de Erlang-C e de testar seis arranjos possíveis de distribuição de banheiros com simulações em computadores.

banheiros unissex em festival

Whaaaat?!?!? Eu quero saber o que os festivais têm a ver com isso!

No estudo publicado na revista científica EOS Wetenschap, Van Hautegem e Rogiest estavam especialmente preocupados em encontrar uma solução para reduzir o tempo de espera em filas de banheiro em festivais e eventos de massa em geral, situações em que as filas longas são levadas ao extremo, em função da grande quantidade de pessoas.

Para resumir bem resumido, os experimentos mostraram que na tradicional divisão entre sanitários feminino e masculino, mulheres esperam 6min19seg em média na fila, enquanto homens esperam apenas 11 segundos. Numa situação em que há banheiros unissex em festival, este tempo de espera torna-se muito mais equilibrado. Sem separação de banheiros, mulheres gastam 1min27seg na fila; homens gastam 58seg.

Fora os festivais de Nova York que eu citei no início do texto, o belga Rock Werchter e o holandês Best Kept Secret também já usam esse arranjo.

Os números e o uso desse sistema na prática já dizem tudo e o texto poderia parar por aqui. Mas se você quer entender como os dois cientistas chegaram a esses números, o Festivalando te proporciona agora um momento nerd 😛

Mulheres em desvantagem. Uma verdade universal até na hora do xixi

banheiros unissex em festival

O primeiro passo do estudo foi entender porque o tempo de espera das mulheres é maior na divisão tradicional de banheiros. Os matemáticos encontraram três variáveis que juntas resultam nessa desvantagem:

Variável 1: Homens têm mais banheiros à disposição, mesmo quando a área dos sanitários é dividida igualmente (alôôôuuu, organizadores de festivais!)

Pegar a área de um festival destinada aos banheiros e dividi-la em dois espaços idênticos é o que fazem os organizadores de eventos, acreditando que estão atendendo igualmente a mulheres e homens. Mas está é uma das muitas situações em que se cai na pegadinha da igualdade x paridade.

Os cientistas explicam que não adianta o espaço ser idêntico se na área feminina há somente cabines e na área masculina há cabines + mictórios. Uma vez que mictórios ocupam menos espaço, é possível contar com uma quantidade maior dos mesmos. No fim, essa combinação mictório + cabine oferece de 20% a 30% mais sanitários para homens numa área.

Detalhe: eles consideraram no cálculo mictórios unitários, mas há muitos festivais que usam um tipo de mictório que comporta quatro homens ao mesmo tempo numa mesma estrutura. Imagina como isso não aumentaria ainda mais a disparidade no cálculo final?

Variável 2: Mulheres precisam de mais tempo para usar o banheiro

Mulheres precisam abrir e fechar a porta, equilibrar-se e fazer ginástica para não tocar o sanitário, tirar a calça/saia/short e vestir outra vez. Homens precisam apenas lidar com a porta, se e somente se usam uma cabine. Quando usam mictórios, nem isso. No cálculo dos matemáticos, isso faz com que o tempo médio de uso do banheiro por mulheres seja de 1min30seg. O de homens é de 1min.

Outros estudos científicos mostram que mulheres também precisam usar o banheiro com mais frequência que homens. Isso se dá em função de condições decorrentes do aparelho reprodutor, como menstruação e gravidez. Além disso, problemas urinários estatisticamente atingem mais as mulheres, como incontinência e infecções.

Variável 3: Multidões. Elas pioram tudo.

Em grandes eventos, a espera na fila é mais dramática para mulheres pelo simples fato de haver uma quantidade enorme de pessoas que precisam usar o banheiro ao mesmo tempo.

Isso não quer dizer, conforme ressalta o estudo, que homens também não tenham que passar muito tempo na fila. Sim, há momentos de excesso de demanda em que grandes filas se formam também nos banheiros masculinos. É o caso dos intervalos de shows. A variável das multidões afeta os dois lados, elevando o tempo médio de espera tanto no banheiro feminino quanto no masculino.

Mas homens não são afetados negativamente pelas variáveis 1 e 2. Dessa forma, o que os cálculos e simulações mostraram é que no banheiro masculino o tempo de espera se normaliza cerca de 15 minutos após o pico da demanda. No banheiro feminino, a normalização pode levar até duas horas para acontecer.

Não basta então aumentar a quantidade de banheiros femininos?

Não.

banheiros unissex em festival

Van Hautegem e Rogiest testaram esse quadro. Nas simulações, eles identificaram que colocar mais banheiros femininos diminui bastante o tempo médio de espera de mulheres. Há uma queda de quase sete minutos para 1min25seg. Entretanto, isso aumenta em 13 vezes o tempo na fila dos homens, chegando a 2min23seg. O objetivo não é melhorar para um lado às custas da piora para o outro. É, sim, achar uma situação que atenda bem a ambos.

É ciência exata: banheiros unissex em festivais são imbatíveis

Só existe um arranjo testado no estudo em que o tempo médio de espera é idêntico: as cabines unissex. Nessa situação, todo mundo espera na fila, em média, 2min10seg.

banheiros unissex em festival

 

Como reforçam os matemáticos, estes são mais que números iguais para todxs. O arranjo é importante porque atende pessoas que não se identificam com a divisão de gênero feminino/masculino. Também atende pessoas que precisam de assistência para usar o banheiro e estão acompanhadas de alguém de gênero diferente.

Ainda respeitando essa lógica, um outro arranjo é possível. Combinar cabines unissex com mictórios. Neste arranjo o tempo de espera para mulheres é de 1min27seg. Homens esperam 58seg. É mais tempo que a média da divisão binária. Porém, é mais equilibrado, somente 29 segundos inferior ao das mulheres. Coincidência ou não, este também é praticamente o mesmo tempo de diferença que homens gastam a menos no banheiro na comparação com as mulheres.

banheiros unissex em festival

Importante: (anotem aí, organizadores de festivais) para que esse tempo de espera se verifique na prática, é preciso respeitar a proporção de cabines unissex/mictórios: de 1,5 a 2 cabines unissex para cada 1 mictório.

E como é usar banheiros unissex em festival?

Igual a usar banheiros separados. Você entra na fila, espera sua vez e vai. Igual a usar banheiro de avião e de ônibus. Ou naquela ~festinha no apê~ com um monte de amigxs misturados com penetrxs que você nunca viu na vida. Você já fez isso em algum momento da sua vida e vai continuar fazendo. Esperançosamente, mais e mais.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora também coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Além de uma das mães do Festivalando, sou colaboradora da Mixmag e do Brasil Post e autora do Porque eu gosto de música. Também ajudei Paul McCartney a falar uai em pleno Mineirão.

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