viajando para festivaisJoeri Swerts/Roskilde Festival/Divulgação

Avaliação de festivais: quais critérios definem os melhores do mundo?

Desde que começamos a escrever aqui no Festivalando, estavam em nossos planos realizar uma espécie de avaliação de festivais. Quando criamos o Festivalômetro, a ideia era eleger uma série de critérios de ordem prática, para tentar estabelecer possibilidade de comparação entre a estrutura de um festival e outro. Aqui nesse post a gente te explica direitinho esses nossos critérios.

Outra estratégia usada foi avaliar aspectos da experiência pessoal,que envolvem gostos entre outras coisas. Afinal, nem só de estrutura bonita e eficiente vive um festival, e é o que tentamos te explicar nesse texto aqui.

Ainda há uma terceira via (ou até mais vias) para se avaliar um festival. A gente não faz aqui, mas existem pessoas responsáveis por creditar excelência aos festivais a partir de critérios comerciais. Como os festivais são um dos grandes negócios da atualidade, não era de se espantar que exista uma consultoria britânica responsável por esse tipo de levantamento. A CGA Strategy está de olho nos festivais pelo mundo e, a partir da sua avaliação, elegeu os 250 melhores festivais da temporada de 2015. Fizemos um post para te contar quais são.

Agora que você já leu o post anterior e sabe quem são os melhores, é hora de se perguntar: em que termos eles são os melhores festivais do mundo? Antes de qualquer discussão sobre uma lista como essa, é necessário entender como ela foi construída.

Vira e mexe recebemos alguns comentários de leitores que não concordam muito com as notas de alguns festivais no Festivalômetro. Mas, tudo é uma questão de observar quais critérios de avaliação são usados. Vamos a uma hipótese para ilustrar: eu presto atenção só no tamanho do palco de um festival. Você presta atenção só no preço da cerveja. Sendo esses nossos únicos critérios de avaliação, não seria muito justo eu ou você defendermos que os nossos festivais são os melhores. Não é mesmo?

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bogdanhoda via Shutterstock

Os critérios da CGA para definir os melhores festivais

Como já dissemos anteriormente, são critérios comerciais. Mas, isso não faz desta avaliação algo inválido. Na verdade, ela é um bom indicador para muita gente. Por exemplo, para as marcas e empresas que investem neste negócio. Por outro lado, são critérios que não necessariamente vão dar prioridade à experiência do usuário. Bora entender:

Duração do festival

O número de dias em que um festival acontece pode dizer muito sobre a qualidade dele. Naquele esforço ~ontológico~ que eu e a Pri fizemos para definir “o que é um festival”, consideramos a duração importante.Para a gente, festival só se parece “festival mesmo” quando tem dois ou mais dias em cada edição. Isso pelo fato de que acreditamos que também cria mais ambiência e vínculo com seu público.

Olhando friamente em critérios comerciais, quanto mais dias um festival tem, mais pepinos vai ter que segurar. Assim, mais competência administrativa ele vai mostrar. Segurar a onda de um dia de festival rolando já não deve ser fácil. Já imaginou segurar a onda de uma semana inteira de festival? É um número tão grande de coisas que podem dar errado que, sem dúvidas, este é um critério de muita relevância.

O número de dias vai mostrar a maturidade do evento, boa gerência, boa administração, organização e preparação.

Renda obtida com a venda de ingressos

De acordo com uma perspectiva de negócio, o lucro que se obtém com ingressos é fundamental para avaliar a qualidade de um festival. A rentabilidade de um negócio é essencial para que ele sobreviva. Além disso, aquilo que vende muito implica um interesse do grande público. Assim, um festival que vende muito é minimante atrativo.

No entanto, a venda de ingressos é um indicador que varia muito de um festival para outro. Por exemplo, a venda de ingressos de determinados festivais em um ano pode ser o reflexo somente daquele ano. E às vezes, aquele ano teve um line up mais atrativo do que em outros anos.

No caso de festivais como o Wacken, entretanto, a venda de ingressos e a renda que provém deles não depende exclusivamente do lineup, mas de toda um prestígio que o festival tem diante de uma gigantesca comunidade mundial de fãs de heavy metal.Não necessariamente aqueles festivais que obtêm a maior renda com vendas vão oferecer a melhor experiência para o público. Nem que o grande interesse de um grupo por um produto pode determinar a indubitável qualidade do mesmo.

Capacidade de pessoas

Capacidade de pessoas é o critério que surge justamente do ajuste entre a estrutura que o festival oferece e o número de ingressos que ele vende. Não diz somente do número de gente que se coloca dentro da área do evento.
A capacidade para x pessoas, quer dizer que x pessoas vão ter uma experiência confortável dentro do festival, e que a estrutura oferecida para x pessoas vai durar e atender até o final. Nesse sentido, é um critério bem importante. Se ele de fato reflete esse conforto da experiência de muitas pessoas. Mas a nossa pergunta é: quem mede essa capacidade?

Geralmente, são os próprios festivais que fazem e divulgam essa relação. Por isso, pode ser que o resultado seja distorcido em função de um critério como esse.Se o Sziget diz que tem capacidade para x pessoas, a gente acredita. Mas acredita até chegar ao festival, pegar engarrafamento para entrar, pisar em esgoto, quase ser atropelada dentro do festival por carros da própria organização…Por isso, olhamos com certa desconfiança para esse critério. Garantir excelência e conforto em serviços para uma multidão não é tarefa fácil.

Patrocínio

Photo:Esper - I Hate Flash

Photo:Esper – I Hate Flash

Um grande aporte dinheiro vindo de patrocinadores pode dizer que mais pessoas também confiam, querem vincular sua imagem a um dado festival. E quanto mais patrocinadores, mais dinheiro, mais melhorias em infra estrutura e aí mais chances de o evento ser de fato sólido e um dos melhores. Sim, em partes.

Certas vezes, os eventos inflados de patrocinadores são um mau negócio para os frequentadores. Por exemplo, quando falamos da experiência no Rock in Rio, essa é uma das partes negativas. Os patrocinadores quase não dão espaço para a audiência respirar no evento. Daí, faltam áreas no festival que digam sobre ele mesmo, sobre seu ideal, seu pensamento, sua personalidade.Uma bricolagem de patrocinadores, que muitas vezes não dialogam entre si ou com o festival faz da experiência dentro do festival algo sintético.

A grana para melhorias de estrutura sempre é bem vinda para construir festivais melhores. Mas se isso significar ter que encher o festival de ações publicitárias nada concatenadas, então talvez a experiência e a própria excelência de um festival estejam comprometidas.

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

2 comments

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  1. Renan 29 setembro, 2016 at 00:37 Responder

    Olá Gra. Bem, você falou dessa questão dos patrocinadores que acabam sendo inúmeros e que gera uma falta de identidade com o festival. Mas acho que como o RIR já é uma marca consolidada, 19° no ranking mundial de festivais dessa categoria, eles precisam se reunir com seus staffs e tentar ver o que está acontecendo e resolver esse problema, pois acredito que dá para resolver, e é preciso vontade por parte deles também e não só visar o lucro. Outra coisa que queria te dizer aqui é que com melhorias e melhor infraestrutura dentro do festival, influi bastante no preço, principalmente pela questão da meia entrada e dos produtores daqui quererem tirar uma certa vantagem. Exemplo: vejo muita gente reclamando do preço dos ingressos do Lolla desse ano, mas ninguém analisa os pontos que você colocou aqui no final do texto, até porque a grande maioria só quer ver seu artista favorito. No entanto, pra gente que procura analisar o festival como um todo, e não só pelas atrações, a gente percebe que quanto mais patrocinadores, maior infraestrutura, mais atrações badaladas e isso interfere no preço do ingresso, já que ninguém ali. com exceção dos voluntários, trabalha de graça e aí também se leva em conta o material que se monta os palcos e uma série de outras coisas. Das duas uma: ou todo mundo boicota o festival, algo impossível de acontecer, ou vai no show quem tem para gastar, inclusive o Régis Tadeu já disse isso em sua coluna no Yahoo falando sobre o caso do Muse no ano passado. Mas enfim, as pessoas não olham por esse lado. Mas aí também temos a questão do poder aquisitivo sulamericano que é bem diferente do europeu. Outra questão que eu queria levantar aqui, e que serve para qualquer festival e show solo e que poderia até virar um futuro post: show solo ou festival? Vale a pena pagar um preço salgado por qualquer atração hoje em dia, principalmente pelo momento delicado de grana em que o país passa? Cito como exemplo o show do Chris Cornell que vai ter aqui no Rio em dezembro. A meia mais barata está custando 225 reais, fora que em São Paulo está muito mais em conta assistir ao show deles. Eu paguei no Epic Metal Fest 253 reais para ver sete atrações, nem se compara! Não vale a pena pagar por qualquer show solo um valor desses em que você pode pegar essa grana e ir num festival muito mais em conta. Posso dizer que aprendi muito com vocês nessa questão de saber valorizar seu dinheiro e não gastar com qualquer show solo, por mais que doa na alma depois, vide Scorpions que acabei perdendo por conta do preço absurdo. Acho que shows solos como Aerosmith, U2, Pearl Jam, Paul e Aerosmith vale muito a pena se arriscar a comprar um ingresso salgado, pois ainda se tem a chance de ter uma banda de abertura. Peço desculpas pelo texto longo pois quando a gente se empolga, a gente acaba se estendendo mais sobre o assunto.

    • Gracielle Fonseca 30 setembro, 2016 at 22:29 Responder

      Ei, Renan!!! Esse é um otimo assunto para post mesmo. Sempre me pego pensando: serão os festivais uma resposta para otimizar os shows e gastar menos, mantendo uma certa lucratividade nessa indústria? Por mais que existam alguns fãs mais puristas que tendam a dizer que é mil vezes melhor ver um show do seu artista preferido separado, eu tenho as minhas dúvidas. Acho que as apresentações de um mesmo artista, avulsas ou em festivais, não diferem tanto. E sou suspeita para falar que ir a um festival vai ser sempre melhor, hauahauahau. Obrigada pela leitura e pelos ótimos comentários, querido! Bjão!

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