acceptAccept em Belo Horizonte. Ph: Iana Domingos

Accept em BH: show e um papo sobre festivais

O Accept foi um dos headliners dos festivais de metal do ano passado. Este ano, eles estão distantes dos palcos festivaleiros, justamente por estarem bem pertinho dos palcos das melhores casas de show de todo o mundo – sorte para a gente, que vimos no último domingo o Accept em BH, e pudemos preencher a lacuna que a banda deixa nos cartazes de festival de 2016. Sabemos que nem sempre é possível conciliar grandes turnês mundiais com todos os festivais. Como o próprio Wolf Hoffmann, fundador e guitarrista da banda me contou um pouco antes do show, em um papo super legal sobre festivais, “cada ano de um músico conta como se fossem dois”, por isso, é preciso descansar, principalmente de eventos que exigem muito da performance da banda, como é o caso dos festivais de música.  Em turnê pela América do Sul em abril, esses músicos que nos ensinaram o que é o heavy metal clássico mostraram porque são nossa referência. Requinte, simpatia e técnica, em uma apresentação estilo lego – tudo se encaixou! Sorte dos fãs que estiveram lá, e quase não deixaram espaço para o ar circular. O Music Hall ficou repleto de “metal hearts” enternecidos.

O simples é clássico

O heavy metal tradicional sempre terá o seu lugar entre os fäs do gênero. Talvez a “cena” de Belo Horizonte tenha de fato ressaltado essa preferência. Os alemães do Accept fizeram o Music Hall parecer pequeno.

 As melodias não são complicadas, os refrões são simples e marcantes. Mr. Hoffmann formula riffs sincronizados com algo que vem de dentro dele, mostra isso na satisfação com que executa cada nota. A banda toda é de técnica irretocável e de sorrisos fáceis.

Peter, Mark e Wolf. Foto: Iana Domingos

Peter, Mark e Wolf. Foto: Iana Domingos

Hoffmann é dono do Accept mesmo. E dono do palco. Seria impossível não notar os quase 2 metros de altura por si só. E quando essa pessoa que possui 2 metros comanda, olha no olho de cada um dos fãs e toca como se a expressão da alma tivesse que se tornar acessível ao mundo por meio da vibração das cordas da guitarra, ah! Aí é impossível. Vira até dono do mundo, sem imposição de força física e coerção – conversar com Mr.Hoffmann de perto não foi fácil, podem deduzir.

Mark e Wolf. Photo: Iana Domingos

Mark e Wolf. Photo: Iana Domingos

Vinte e uma músicas, executadas quase sem tempo para eles e nós respirarmos. Depois de introduzir Blind Rage ao vivo – o álbum é de 2014, mas é como se fosse um dos clássicos, tamanha foi a repercussão (o cd marca um grande retorno do Accept ao topo das paradas de música alemãs). Um sucesso absoluto, com músicas já cantadas de cabo a rabo pela plateia. Na metade da primeira parte do show, começaram a salpicar músicas de álbuns mais distantes, como as canções Living for Tonight, Restless and Wild, London Leatherboys…O show caminhava rápido e quase burocrático, quando Mark terminou a sétima música e cumprimentou a plateia, contando que estava curtindo muito a turnê no Brasil – na terceira música a nossa bandeira foi carregada por ele, e ao fim do show, o baterista Chris estava vestido com a camisa da seleção – demonstrações de carinho que o público curtiu.

Accept. Foto: Iana Domingos

Accept. Foto: Iana Domingos

A segunda parte do show tem uma retomada do Blind Rage, com Dying Breed e Final Journey – e Wolf mostra que nasceu mesmo para solar na cara da sociedade. Algumas músicas do Stalingrad também nessa parte do show – Shadow Soldier foi uma das músicas mais arrepiantes (haja ôôô pra tanta melodia bonita); somente a Bulletproof do Objection Overruled, e logo depois o show chegava a seu ápice, cada vez mais quente, no sentido da temperatura da casa mesmo, o que acabou arrancando um ” AI AI AI” de Mark, que acabou logo se livrando da sua camisa – ah! A liberdade masculina de tirar a camisa sem ser taxado pelo seu público como alguém que só queria aparecer. Um dia nós mulheres chegaremos lá, Mark! Destaque também para o ar insano de Peter, outro membro antigo da banda, ao lado de Wolf, e que toca todas as músicas como se ainda fosse um adolescente fascinado pelo heavy metal. Talvez ainda seja, mesmo!

Wolf e Peter. Foto: Iana Domingos

Wolf e Peter. Foto: Iana Domingos

Com a execução de algumas músicas de Blood Nation, o show caminhava para a parte paradoxal – aquela que todos querem ouvir, mas não querem, ao mesmo tempo, pois é o fim da noite. A falsa despedida de sempre, uma pausa e pronto: Fast as a Shark, Metal Heart ( e mais ôôô, diálogos acirrados entre guitarra-público), Teutonic Terror, Son of a bitch e Balls to the walls tocada como se fosse a primeira música do show, em termos de energia de todas as partes envolvidas – a igreja aplaude de pé! hahaha. Afinal, depois de todo o concerto, fica fácil entender a insistência nas adjetivações de “deuses do metal”, usadas para as bandas como o Accept.

Christopher Williams. Foto: Iana Domingos

Christopher Williams. Foto: Iana Domingos

TRATE COMO PAI QUEM TRATA FESTIVAIS E SHOWS COMO FILHOS <3

Fizemos uma conversa breve com Wolf Hoffmann sobre os festivais de heavy metal, aeee!

Antes de eu entrar na sala, o tour manager falou: Você tem 15 minutos para a sua entrevista.

A banda tinha se atrasado um pouco para chegar à casa de shows. O meet and greet marcado para as 17h40 já estava atrasado; quem sou eu para protestar contra o tempo que me foi dado. A pauta X vira pauta X-1 e a gente segue feliz, pois não é todo dia que se pode falar de perto com Mr. Hoffmann. Super simpático, Wolf cumprimenta a mim e a fotógrafa Iana Domingos, e nos pergunta como estamos. Serviria falar “com o sistema nervoso de fato nervoso, Wolf?” Fine, fine! Bora fazer a entrevista:

Foto:Iana Domingos

F: Qual o melhor festival no qual você já esteve presente, como músico?

W: Oh, meu deus! Há tantos festivais maravilhosos na Europa, Sweden Rock é muito bom, Wacken, provavelmente o mais conhecido, e é realmente muito  bom, muito bem organizados, ambos, na verdade. Bang your head, na Alemanha, também é muito bom. Tocamamos também no Rockavaria ano passado,  que é ótimo e no Monsters of Rock, no Brasil.

F: E como foi o Monsters of Rock?

W: Foi muito bom! Penso que todos esses grandes festivais são muito bem organizados.

F: Você prefere tocar em grandes festivais, ou pequenos shows, só seus, como o de hoje?

W: São duas coisas diferentes, na verdade. E eu gosto de ambos por razões diferentes. É difícil dizer se um é melhor do que o outro. É como quando você é pai de duas crianças: elas são ambas muito boas, você as ama igualmente, mas elas são totalmente diferentes, sabe?  Quando você toca em um festival, é claro que é um sentimento fantástico quando você olha para aquela grande multidão, e todo mundo canta junto… Mas, ao mesmo tempo, você não consegue ver os rostos individuais, sabe? Porque, às vezes, a primeira linha de pessoas está a uns 10 metros longe de você.  Então, é apenas a visão de uma grande masssa anônima de pessoas. E num club, como hoje, você tem muito mais dessa reação imediata que você vê, as expressões faciais. Você quase pode tocar as pessoas, e às vezes você literalmente as toca, não é mesmo? [risos]

F:  Haha,sim. É verdade!Tem algum festival que você não curtiu ter tocado e que não voltaria a tocar?

W: Não, nunca tivemos uma experiência ruim. Talvez nos festivais pequenos, há muitos anos atrás, quando toda a cena ainda estava na fase de desenvolvimento. Hoje é tudo muito bem organizado, bem estabelecido. Mas é claro, todo país é um pouco diferente, nesse quesito. Às vezes quando você vai para alguns países, as coisas em geral são menos bem organizadas do que em outros. Mas isso não nos incomoda, sabe?

F: Tem alguma diferença quando você prepara o seu show para os festivais ou para os pequenos concertos, em casas de show?

W: Sim, tem. Nós tendemos a ficar longe das canções super rápidas, às vezes também tentamos ficar longe das músicas que são realmente lentas, e que são tipo as que colocam para baixo. Por alguma razão, as audiências de festival gostam de ter algo que seja meio termo, ou que os faça ficar pulando para cima e para baixo. E eles gostam de serem  energizados, sabe? Eles não estão lá para realmente ouvir, mas estão para festejar, pular. Acho que a audiência das pequenas casas é diferente, nesse sentido.

F: Tem algum festival que você ainda não tocou, mas gostaria de tocar?

W: Ah, claro! Penso que nunca tocamos no Rock Am Ring, a gente nunca tocou realmente em alguns novos festivais nos Estados Unidos que tem começado nos últimos anos. Rocklahoma, eu acredito. Mas acho que a gente já fez quase todos os festivais, a essa altura.

F: Existe alguma coisa diferente quando você toca em um festival europeu, comparando quando se toca aqui no Brasil?

W: Não, realmente. É bem parecido. Digo, as audiências aqui na América do Sul são fantásticas, sabe? É sempre muito divertido. É um mimo extra para a gente vir tocar aqui, sabe? Loucos, muito loucos, brasileiros, argentinos, todos!

F:Você pode contar alguma história engraçada, que tenha acontecido com vocês durante um festival?

W: Então, agora que você está falando, eu me lembro de uma.  Há poucos anos atrás nós tocamos no Sweden Rock, eu não pude acreditar, mas tinha uma plataforma no palco – os palcos são feitos de muitas plataformas de madeira, e do nada,  tinha uma falha nessas camadas de madeira, e Peter caiu nela! Ele atravessou  todo o caminho até o chão, nesse buraco que tinha no palco. Mas, por sorte, ele conseguiu levantar. Caiu meio que sentado no limite entre as madeiras. Mas, literalmente, tinha um buraco em nosso palco, do nada. E notei que todo mundo estava em pânico, seguranças, organização. As pessoas estavam tentando colocar o painel de madeira de volta ao lugar. Mas estava muito perigoso. Peter podia ter se machucado de verdade ali.

F: Caramba! E os escandinavos cuidam tanto para que tudo fique impecável!

W: É, eu sei! Mas foi um acidente mesmo! De alguma forma,  talvez alguém tenha se esquecido de pregar a madeira direito. E você sabe, louco como o Peter é, fica pulando pra cima e para baixo, o tempo todo. Acho que o público não notou muito, mas, sabe, foi engraçado e, ao mesmo tempo, assustador!

F: Vocês já tocam em festivais há muito tempo. Você já pensou em ter o seu próprio festival, tipo, Accept fest?

W: Talvez, em algum ponto. Mas não é nosso foco, pelo menos não para um futuro imediato. Mas nunca se sabe o que pode ancontecer.

F: E se rolasse, qual seria o line up dos seus sonhos, para o Accept Fest?

W: Oh, deus! Tem tantas grandes bandas! Gosto muito das bandas clássicas. Gosto do Deep Purple, Judas Priest, AC/DC, sabe? Motorhead é demais, claro. Mas, sem Lemmy agora. E você sabe de uma coisa?Melhor a gente correr com esse festival,então, haha. Escrevemos até uma música sobre isso, chamda Dying Breed. Porque você não pode conter isso, não adianta. As pessoas estão morrendo à nossa volta. E as pessoas estão envelhecendo. Os anos dos músicos, acho que eles contam duas vezes, você entende o que quero dizer?

Depois disso, agradeci muito pela honra da entrevista e nos despedimos. Ele falou que gostou muito de Belo Horizonte. Disse que passou de carro pela cidade e achou bem legal, melhor do que as partes centrais do Rio de Janeiro… ai Wolf, c não sabe de nada, inocente! Só passou na região centro-sul de bh, queridinho! hahaha

* Iana Domingos colaborou como fotógrafa desse post. Valeu, gata!

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

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