Fotos Priscila Brito

A autenticidade punk salva por uma camiseta

Os spikes se tornaram item decorativo obrigatório de qualquer peça vendida em loja de departamento. A agressividade dos alfinetes nas roupas foi convertida em recurso de sensualidade nas passarelas, em vestido icônico da Versace. Johnny Rotten, vocalista do Sex Pistols, virou garoto-propaganda bem vestido para vender manteiga na Inglaterra. A cultura pop engoliu, mastigou e cuspiu de volta a moda punk sem suas propriedades originais, certo?

Mais ou menos. É claro que a essa altura da história o potencial de choque e contestação do visual anti-moda criado lá nos anos 1970 já foi amortecido pela banalização desse estilo, e já deve ter uma geração aí que sequer sabe identificar no tempo as referências históricas por trás da palavra punk. Mas num terreno com chão de poeira num subúrbio de Berlim a perspectiva é outra.

O Resist to Exist, um dos maiores festivais de punk, hard core e ska da Europa, realizado anualmente na capital da Alemanha, entrou na nossa primeira rota por festivais do velho continente e lá foi possível constatar que a sociedade-capitalista-fashionista-malvada ainda não conseguiu matar a essência do punk, inclusive no que se refere ao visual – a propósito, um evento que tem a palavra “resistir” no nome diz muito sobre o que é o movimento.

Ainda existem punks porque há pessoas que se identificam fortemente com uma ideologia anti-establishment, contrária a formas de dominação e de opressão individual – bastou eu colocar o pé dentro do festival para passar um fim de semana inteiro ouvindo incessantemente, no meio do público e no palco, discursos contra o fascismo, a homofobia, o racismo e o machismo, por exemplo. E se as tachas, alfinetes e moicanos que mulheres e homens punks continuam usando já não causam nenhum impacto porque já foram apropriadas fora do campo ideológico, eu entendi que ficou a cargo das camisetas ser o último item do visual a não ter seu significado esvaziado.

Camiseta à venda no festival: "Todas as pessoas são estrangeiras. Em quase todos os lugares. Todos os racistas são idiotas. Em qualquer lugar!"

Camiseta à venda no festival: “Todas as pessoas são estrangeiras. Em quase todos os lugares. Todos os racistas são idiotas. Em qualquer lugar!”

 

Cada camiseta era um grito lá no Resist to Exist. Há tempos que elas de fato são portadoras de mensagens para qualquer um de nós, sejam aquelas com frases vazias e aleatórias à venda nas lojas de departamento, ou aquelas com piadinhas e trocadilhos espirituosos de lojas online descoladas. Mas quase nenhuma carrega a contundência das amostras que vi nos dois dias de festival.

Amor e dois gritos contra o neonazismo: "Good Night White Pride" é a resposta do movimento punk alemão contra a emergência do fascismo no país nos últimos anos

Amor e dois gritos contra o neonazismo: “Good Night White Pride” é a resposta do movimento punk alemão contra a emergência do fascismo no país nos últimos anos

 

Contra o racismo, o fascismo e o capitalismo - "combata o capital"

Contra o racismo, o fascismo e o capitalismo – “combata o capital”

 

Os coletes customizados fazem par com as camisetas no exercício de resistência da autenticidade, mas lembro que não faz muito tempo vi num desses canais a cabo como ~dar um toque~ punk ao colete jeans (que voltou à moda). Se você quer mesmo uma peça assim, dentro do seu direito legítimo de se inspirar no que quiser para se vestir, aproveite a deixa deste post e busque as referências direto da fonte, ainda autêntica, nos punks da vida real.

modapunk_coletes

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora também coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Além de uma das mães do Festivalando, sou colaboradora da Mixmag e do Brasil Post e autora do Porque eu gosto de música. Também ajudei Paul McCartney a falar uai em pleno Mineirão.

2 comments

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  1. Leonardo Do Carmo Cota 8 janeiro, 2015 at 09:21 Responder

    So um detalhe a camisa Good Night white pride me assustou um pouco, mas depois disso li um pouquinho e vi que era na verdade uma mensagem contra a supremacia branca, só que no logo da camisa acima não tem a inscrição de HC (hardcore) no carinha de pé.

    • Priscila Brito 8 janeiro, 2015 at 10:44 Responder

      Sim, Leonardo. Deixei pra colocar essa informação na legenda da foto, mas acho que pelo pouco espaço não ficou muito claro. Foi mal. A propósito, a mensagem “Love Music, Hate Fascism” que está na sequência de fotos logo abaixo dessa do Good Night White Pride também faz parte de uma ideia maior, que é uma campanha dos festivais alemães contra o fascismo. Vai virar post aqui depois.

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